7/14/2019

O arrepio Conto), de Oscar Lopes



O arrepio
A caminhada fora longa, embora feita lentamente, porque não tínhamos pressa nem destino. Não será a melhor maneira de repousar ideias, de adormecer preocupações, de preparar o espírito para um jantar apetecido e para uma noite reparadora, andar à toa, uns vinte minutos, meia hora, a pé, em companhia de alguém com quem se esteja em intimidade absoluta, assim pelos crepúsculos de verão, nas tardes ventiladas, quando já desapareceu o calor afogueante dos últimos raios do sol, quase horizontais.
Se não estávamos, na verdade, cansados, punham já os nossos músculos uma certa indolência na marcha e uma lassidão agradável se insinuava nas pernas, nos braços em abandono e chegava mesmo às nossas espáduas. Assim o convite mudo mas persuasivo, daquele banco sob a aparada fronte do oiti, perto dos maciços em flor, sendo oportuno, foi aceito com agrado por nós ambos.
— Um cigarro!
— Se não for muito forte...
Era de fumo fraco. O meu amigo aceitou-o e entramos a fumar com preguiça, os olhos perdidos no mar imóvel da enseada, nos claros palácios da Praia Vermelha, até o céu, do outro lado das pedras. Carros passavam, de volta de um enterro, seis, oito em fila, apressados, empoeirados, conduzindo sujeitos vestidos de preto, as faces a reluzir das fricções violentas dos lenços enxugando o suor. Em sentido contrário passou um elegante double-phaeton de 40 cavalos, rápido, e um instante brilharam vestidos frescos de verão e véus e gazes de cor, echarpes que flutuaram nervosamente para fora da carrosserie...
— Quem é?
— Não sei, não pude ver.
E a poeira implacável que se levantava na estrada e subia até nossos olhos, bocas e narinas, fez-nos voltar com desgosto a face para o outro lado. Ao mesmo tempo o meu amigo estremeceu dos pés à cabeça.
— Que foi isso?
— Foi o arrepio, respondeu-me a rir, apontando com o dedo o mirante de um dos mais altos prédios da cintura de construções. Era um prédio novo, dos mais belos da nossa época, produto dessa espécie de renascimento arquitetônico que se manifestou quando a bem amada cidade do Rio de Janeiro resolveu finalmente reagir contra a tirania inestética dos mestres de obras, classe execrável de utilitaristas sem imaginação, sem ideias, sem gosto e sem responsabilidade profissional. Era uma casa alta, de linhas graciosas, ao sabor flamengo, com um dos lados se projetando em torre até grande altura. Não estava concluída, mas não se via senão um andaime, exatamente no mirante, dando-lhe a volta toda e sem pontos de apoio do lado exterior. Não passava de uma platibanda feita de tábuas ligadas umas às outras, conjugadas provisoriamente, todo o aparelho preso pela parte interna da casa. Não tinha mais que três palmos de largura e sobre o estreito passadiço estava um homem agachado, provavelmente o operário que reunia os seus utensílios, acabada a tarefa.
— Tiveste receio que o homem viesse abaixo, perguntei, quando o operário se retirou.
— Não...
— Sofres da vertigem das alturas?
— Também não. E se sofresse, não havia risco porque eu estava embaixo. Queres a explicação do meu arrepio?
— Está claro que sim.
— O arrepio vem todas as vezes que vejo alguém trabalhando numa torre ou mesmo em qualquer andar mais elevado, em equilíbrio sobre uma tábua que se projeta fora das fachadas. Hoje foi a vez daquele pobre homem. Vem-me o arrepio porque me lembro de certo fato, já muito remoto, que me causou uma terrível sensação, sem, entretanto, no momento, fazer-me estremecer. Eu cursava o primeiro ano de direito, numa Faculdade de província. Tinha uma boa roda de amigos na turma. E nessa roda havia de tudo: o estudante modelo, vivendo apenas para o compêndio — classe de moços que até a terminação do curso fecham todas as portas deslumbrantes da vida e se contentam com a miserável janela do exato e acanhado cumprimento dos seus mesquinhos deveres acadêmicos; o aluno brilhante que se não vê estudar e presta excelente exame; o repetente eterno, que sempre tem a sorte de encontrar um professor sem entranhas, reprovador desalmado, poço de ódios pessoais; outro que, para não perder uma hora estudando um ponto, compreendendo-o, gasta duas aparelhando o material de fraude para as provas, com muito engenho mas sem a assimilação de uma só ideia; e até mesmo o que sem estudar durante o ano, sem o menor cabedal armazenado, consegue por um prodígio de presença de espírito, dizer coisas certas em banca. Morávamos oito na república. Tínhamos a casa toda, uma casa térrea, situada na praça, em frente à Catedral. Certa ocasião — a época de exames vinha perto — eu estava abancado na sala da frente, devorando os pontos de Direito Romano, quando subitamente no interior estalou uma algazarra, uma altercação. Mal reconheço a voz de dois colegas em disputa, ei-los atravessam a sala como um pé de vento, um perseguindo o outro, e, saltando a janela baixa, caem no passeio, ganham a praça que um alvo lençol de areia cobria e por ela continuam a desabalada carreira. Eu deixara o livro, interessado na aventura, acompanhando as peripécias daquele esporte improvisado. A praça não era muito grande, de sorte que eu podia seguir todos os movimentos dos companheiros. O perseguido conseguia manter o outro a distância de seis a oito metros. Várias vezes fizeram a volta à praça e de cada vez que passavam em frente à janela mais afoguerdos vinham, mais excitados e cada qual menos disposto à rendição. Inda lhes soltei um grito: — Malucos! Ambos viraram os rostos rubros e risonhos para o meu lado e continuaram a correr talvez mais animados. Um era magro, outro era gordo. Parece que o gordo, com o meu grito, ganhara certa vantagem! O magro, o perseguido, logo viu isso e enfiou pela porta aberta da igreja, defronte. E o gordo passou atrás dele. Eu repeti para mim mesmo: Malucos! e ia abandonar a janela, volvendo ao livro. A manhã estava fresca e alegre. O sol nascendo no oitão de nossa casinha, batia em cheio nos prédios fronteiros. A Catedral, toda branca, mais branca estava do sol. A brisa que corria rente às casas do lado ensombrado era uma carícia boa. Criadas regressavam do mercado, os cestos abarrotados de legumes. Crianças brincavam de roda e cantavam, à sombra de um castanheiro. Mas, uma pancada, de sino, uma pancada seca, falha, de ressonância áspera, veio tirar-me da contemplação em que estava mergulhado. Levantei, instintivamente, os olhos para as torres, alvas da Sé e, de repente, na torre do lado esquerdo, vi surgir da mais alta janela, da última ogiva, a figura do magro. Deteve-se um instante. Avançou o pé, experimentando a platibanda. Passou para fora, deitando logo a correr. Não tinha ainda desaparecido do lado de lá da forre e o gordo já transpunha também a ogiva, ganhando a platibanda e disparando, empós do outro. Essa plataforma não chegava a medir três palmos de largura — na tarde desse mesmo dia fui verificar — distava do solo, meu caro, apenas quarenta e cinco metros. Não tinha corrimão ou balaustrada, nada que se parecesse com um vago ponto de apoio. Pois, foi por aí mesmo que, durante uns três infinitos minutos, vi em voltas sucessivas, o magro passar perseguido pelo gordo, o gordo perseguindo encarniçadamente o magro. Eu tinha o coração pequeno, apertado, e creio que a minha emoção ainda era maior quando algum dos dois, ou, às vezes os dois ficavam ocultos pela torre. Eu acompanhava, suspenso, a pavorosa carreira: o magro... o gordo... o magro... o gordo... o magro... o gordo... De repente — e nunca mais tive sentimento de alívio tão grande — o magro desapareceu pela Ogiva. O gordo seguiu-o. Respirei. Estavam salvos. No dia seguinte, voltados à razão os contendores, fizemos a nossa mudança para longe da Catedral. E aí tens a história do calafrio...

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Oscar Lopes (1882-1938)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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