domingo, 14 de julho de 2019

Terra proibida (Conto), de Oscar Lopes


Terra proibida

Chegando ao jardim, tendo deixado ainda cheios de ruído e brilho os vastos salões que abrigavam todas as maravilhas mundanas, Máximo parou, abotoou o rocló sobre o peitilho da camisa, acendeu um cigarro, lançou a primeira fumarada ao ar frio e fino da noite de junho, sorriu com um sorriso de imensa satisfação e tornou a andar — tudo isso com um leve lume de espanto nos seus olhos grandes e calmos.

Passou o portão, que o porteiro abriu, descobrindo-se respeitosamente. Achava-se em plena rua, onde se arrumavam em fila os carros dos convidados, negros e lustrosos. Um  coupé destacou-se da fila e veio parar em frente de Máximo. O groom pulou da boleia ao chão para abrir a portinhola. Máximo impediu-lho:

— Não. Eu vou andando. Siga-me a passo.

E começou a caminhar pela rua solitária, acompanhado pelo seu carro que a alguns metros de distancia rodava lentamente.

Para recompor a sua situação imprevista naquela noite toda de surpresas, preferira o ar livre à estreita caixa do coupé, pensara que o clarão das estrelas faria bem à sua vista ainda tomada de um ofuscamento estonteante. Eram três e meia da manhã. Andaria a pé uns vinte ou trinta minutos, rumo de casa. Mais dez ou quinze de carruagem bastariam para perfazer o caminho todo. Não tinha sono. Antes, estava de uma leveza singular.

Máximo principiou a recapitular a sua noite que intimamente considerava uma noite de glória. Entrara no baile às onze horas e já a festa atingira o auge de esplendor. Logo vira que a noitada seria sem aborrecimento. De resto, eram sempre encantadoras as recepções naquela casa, onde se reuniam as mulheres mais formosas da sociedade e os homens notáveis nas artes, no jornalismo, na política, os banqueiros mais em evidência e os senhores, os jovens senhores ricos e indolentes de uma reconhecida incapacidade mental. Além disso, Me. tinha o segredo de acrescentar à lista das celebridades que lhe davam lustre às recepções a meia dúzia das senhoras da alta roda cujas virtudes maior discussão houvessem sofrido nos trinta dias de intervalo entre uma festa e outra.

Feitos os cumprimentos a Madame e ao marido, Máximo deteve-se à porta da sala de dança e circulou o olhar investigador, fazendo graciosos acenos de cabeça às pessoas que ia reconhecendo. A valsa que nesse momento a orquestra começou a executar pôs em campo dezenas de pares. Ao rodopelo da dança, logo reconheceu num giro lânguido a figura de Sirte, cujos olhos de longe o fitaram, rápidos e medrosos. Máximo viu que os olhos de Sirte eram os que ele sempre conhecera, os mesmos olhos negros e macios, de um negror de pecado. E viu mais, disfarçando quanto podia a analise, que Sirte estava suprema de beleza e graça, no vestido finíssimo cor de pérola, sem uma prega, sem uma ruga, que lhe desenhava escrupulosamente o corpo de linhas doces e ondulantes, e acima do busto se abria, deixando surgir o colo de um tom de pérola mais fraco e o pescoço esguio e a pequena cabeça de um contorno helênico oscilando ao ritmo da valsa como uma nobre flor ao vento.

Nesse instante um roçagar de sedas contra sedas fê-lo voltar-se para trás. Era Madame que chegara e se dirigia para a sala.

— Esperava por vossa excelência para começar o meu baile...

E como Madame cedesse com um claro sorriso e um alegre olhar, Máximo tomou-a pelo braço e, depois de alguns segundos, os dois entraram no turbilhão.

Pelo sexo, Madame era indiscreta sem ser leviana. Mais de uma vez pedira a Máximo que a considerasse como um amigo ou pelo menos um bom camarada. Era difícil ou impossível tratando-se de uma mulher bonita ainda nos seus trinta anos viçosos. Isso mesmo lhe dissera Máximo. Ela agradeceu o cumprimento e não insistiu. Pouco a pouco, porém, provou-lhe que sabia alguma coisa da sua vida íntima. Uma palavra maliciosa, às vezes uma frase onde cada vocábulo parecia fazer o papel de testemunha, insinuações meio diretas, situações inteligentemente preparadas, tudo isso mostrava que ela conhecia os seus segredos e até os segredos da sua garçonière. Nas indiscrições de Madame era visível a necessidade de fazer dela um camarada, um bom camarada, no original.

Na última visita feita por Máximo aquela casa, havia quase dois meses, Madame conversara de Sirte, exigira uma confidencia completa. Ele contou um pouco de seu amor, quase nada do tempo bom, e narrou com a maior precisão de detalhes o rompimento ainda recente. Quando a narrativa terminou, Madame lhe ganhara toda a confiança. De modo que não houve o menor constrangimento nesta frase que foi cair nos ouvidos de Máximo:

— Apesar de tudo, o meu amigo vai dizer que Sirte é a mais linda criatura da sala...

— Talvez o dissesse, se vossa excelência não estivesse aqui.

— Aí vem com o seu mau costume de lisonjear. Mas, ao menos, acha que está irresistível...

— Também não. Faço toda a justiça dizendo que Sirte está formosa; digna enfim de ser acolhida em sua casa.

— O meu amigo já a cumprimentou, decerto.

— Decerto, não. Ela ainda não me viu e por mim não tive tempo ainda. Vossa excelência sabe que, mal cheguei, dei-me pressa em vir à sala, à dança, guiado pela minha boa estrela.

— E acha que desse modo evita os perigos?

— Tenho a certeza. Não crê a gente nos anjos impunemente...

Houve uma pausa no diálogo, que Máximo com facilidade preencheu deixando a vista envolver o corpo todo da criatura que bailava pelo seu braço, sentindo em ondas embriagadoras o cheiro que se evolava daquela carne ainda moça. Em um momento, os olhos de ambos se encontraram, justamente quando Máximo se achava em mais absoluta contemplação. Ela estremeceu, percebendo o olhar abrasado de seu par. E o fim da valsa foi delirante.

— Já foi ver o jogo? perguntou ela depois de fazer uma volta pelo salão.

— Ainda não.

— Venha comigo.

Atravessaram o salão, passaram pela sala de orquestra e entraram em outro aposento da casa, amplo, confortável, destinado aos velhos sem outra paixão que o azar das cartas e aos moços que a Sorte já dominava. Pararam ambos à porta.
Madame olhou rapidamente e disse afastando-se:

— Não está.

Máximo não compreendeu a cena e perguntou:

— Poderei saber por quem vossa excelência procura?

— Procuro Sirte.

Foi com espanto que ele replicou:

— Mas tenho quase a certeza que a deixamos no salão...

—Neste caso vamos lá.

O passo de Madame era pressuroso.

— Porque me leva a minha boa amiga para junto de Sirte?

Ela deteve-se. E foi entre risonha e séria que respondeu:

— O meu amigo é que se dá ao incômodo de me levar até onde está Sirte.

— Ah!

Entraram na sala de orquestra. O salão ao lado, cessada a valsa, estava cheio do rumor dos que agora andavam e de um brando murmurar de vozes em surdina. De súbito, a figura esbelta de Sirte surgiu à porta, face a face de ambos, e estacou insensivelmente. Máximo adiantou-se e a saudação que lhe dirigiu foi de uma serena polidez.  

— Onde vais, Sirte, com tanta pressa? inquiriu Madame.

— Aconteceu-me um pequeno desastre na sala. Vou ao boudoir.

E Madame para Máximo:

— O meu amigo vai acompanhar-te até lá...

— Sem incomodo...

— Nenhum, minha senhora.

Os dois partiram, em silêncio, contratei tos, enquanto Madame penetrava., outra vez no salão.

À porta do boudoir Sirte desprendeu-se do braço dele, que se deteve à espera. Pouco tempo ali esteve, o bastante contudo para rememorar o capítulo e evocar a maldade satânica da alma de Sirte. Com efeito, Sirte lhe fizera grande mal. E o que mais lhe impressionava nas suas perversas ações, de uma infinita perversidade, era a forma de inconsciência de que se revestiam. Sirte o amara, seguramente muito o amara. Tinha disso provas deliciosas. Mais de uma vez lhe experimentara a sensibilidade para verificar até que ponto a tinha cativa. E a conclusão a que chegava era sempre a melhor: ela era de uma docilidade, de uma humildade que nunca encontrara em outra mulher. E a audácia de Sirte naquele amor que devera viver à sombra fazia-o pasmar e algumas vezes tremer. E fora essa mesma audácia que a perdera, quando abertamente concedeu a corte a outro homem diante de Máximo, e do marido, portando-se como uma perfeita inconsciente. Durante três dias ele a odiou, ou antes, deixou-se invadir por um profundo sentimento de desprezo. No quarto dia Sirte lhe apareceu inopinadamente em casa, ás duas horas da tarde de um lindo dia de Primavera, depois de em vão ter esperado resposta às suas cartas aflitas e eivadas de perguntas de toda a sorte. Máximo estivera a princípio de uma brutal simplicidade. Como não houvesse humilhação que a fizesse demover do intento de se reconciliar, após longos vinte minutos de rogos e imprecações, foi Máximo quem deliberou sair, cheio de raiva e de aborrecimento, deixando-a em seu gabinete, aos pés do soberbo grupo do Triunfo de Afrodite, em mármore, onde se vê a deusa vitoriosa, no seu carro tirado por quatro cavalos fogosos e de azas abertas deslocando o ar.

Pela madrugada voltou. Havia de Sirte, um vestígio: uma carta febrilmente escrita, começando por um montão de injurias, descendo gradativamente até o mais pungitivo lamento. Máximo sorriu com piedade e guardou a carta com cautela. Deitou-se pouco depois e adormeceu com a tranquilidade de um justo. Quando no dia seguinte acordou, tinha a certeza de que Sirte o odiava de morte. E com isso se alegrou. Nunca mais a vira desde então, até aquele baile, aquele momento em que a encontrara fugindo da sala caminho do boudoir, a remediar o desastre.

E nisso ela apareceu, refeita a toilete. Tomou- lhe o braço, um pouco esquerda, ainda. Ele disse:

— Quer jogar uma partida de bilhar?

Sirte aceitou. A sala de bilhar estava inteiramente vazia. Ao penetrarem, mal o reposteiro caíra sobre ambos, de um gesto Máximo tomou-lhe a cabeça formosa nas mãos e colou os lábios nos seus lábios que de repente embranqueceram.

E houve de boca a boca um sorvo longo, que parecia não ter fim, onde todas as volúpias se encontraram reunidas, numa condensação de frêmitos e palpitações de carne, num delíquio de almas em surtos longínquos e misteriosos, e houve de boca a boca um beijo farto, sustadas as respirações em um minuto interminável, como se ambos renunciassem à Vida e ali ficassem hirtos, ligados um ao outro, fundamente ligados um ao outro, fundamente ligados num enlace, eterno, na apoteose radiante do Amor e da Beleza...

A um rumor próximo de passos ambos se repeliram assustados. Deram-se o braço, deixando a sala. Madame vinha para eles, com alegria e pressa:

— Jogaram bilhar?

— Íamos jogar, disse Máximo, escondendo a emoção. Mas a sala está quente e preferimos dançar esta valsa. Se vossa excelência permite...

— Não percam tempo, vão.

E a valsa foi encantadora. Quinze minutos depois, Máximo sentava-se a uma mesa de pôquer, de onde se ergueu às duas horas para a ceia, tendo ganho alguns centos de mil réis. Não teve à mesa (e com isso deu graças a Deus) vizinhança incomoda ou indiscreta. Madame sentara-se longe, ao lado de um inglês, um claro rapaz londrino, que tinha a vantagem de saber jogar o tênis. Quanto a Sirte, ficara ao pé do marido. 

Um charuto fumado em companhia de homens que falaram de política, a um canto da sala de jogo, com mais ou menos monotonia, findara a sua noite. Achava-se agora ali na rua, seguindo a pé para casa, ao clarão das estrelas. Nos seus olhos grandes e claros persistia o mesmo lume de espanto.

É que, recapitulando tudo, não encontrara uma explicação para o incidente. De certo não amava Sirte. Seria uma imprudência e uma tolice. E ela? A resposta foi categórica. Sim, era evidente. Mas como não haver naquela alma o menor movimento de recusa para a carícia de um homem que com bruteza e crueldade a tratara? Por que humilhar-se desse modo, se lhe não faltavam corações inflamados de amor, tocados pela sua magia?

Ele ainda a dominava e sentia que em qualquer momento da vida aquela criatura seria sua e o amaria com exuberância e paixão.

Máximo considerou fácil e de bom sabor esse conceito. Mas ele? Por que aquela brusca mudança no seu procedimento? Não fora uma experiência. Não teria tido coragem para tentá-la, na certeza da repulsa. Um súbito acesso de afeição? Também não, isso jurava. Então, então fora a saudade de um recanto da Terra que se amou, de um lugar em que se viveu um dia feliz, aonde se aportou com todas as esperanças e de onde se saiu fatigado depois de vistos todos os segredos, quebrado o encanto que de longe nos acenava. Mas os dias passaram. À medida que passavam os dias, o encanto retomava o seu antigo prestígio. As tentações estavam lá, chamando e atraindo, irremediavelmente atraindo. Fora a saudade que lhe arrastara os lábios sôfregos para aqueles lábios, para aquela boca. E agora, vista de novo a Terra Proibida, a indiferença retomava o seu lugar. A saudade, fora apenas a saudade...

Máximo parou. O coupé, quede manso rolava, correu um pouco, a seu encontro. O groom desceu, abriu a portinha que logo em seguida se fechou, com estrepito. Uma chicotada estalou, fustigando os animais. Com um arranco o carro partiu pelo frio da manhã de inverno, ao clarão das estrelas desmaiadas.

Rio, 1905.


---
Oscar Lopes (1882-1938)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...