terça-feira, 16 de julho de 2019

O exemplo de Obregon (Memória), de Ronald de Carvalho



O exemplo de Obregon

"Desse tumulto, como onda que empolasse o dorso e, de improviso, avultasse sobre o referver das paixões partidárias, arrastando, no redemoinho impetuoso, o turbilhão das vagas menores e incontáveis, que se agitavam inutilmente, surgiu Obregon.

Obregon veio da terra, e a terra imprimiu-lhe o feitio dos temperamentos exaltados. Sua mocidade foi espontânea e rebelde, como a de todos os homens que nasceram sem compromissos. Já, montado no lombo nu dos cavalos, laçando o touro tresmalhado ou competindo com os mais adestrados ginetes de Sonora, já, de espingarda pronta, escondido entre a vegetação úmida e rasteira dos mangues tranquilos ou à sombra dos bosques espessos, para derribar as garças ou os gamos selvagens, ele viveu a adolescência de um herói.

Sempre em contato com o povo, Obregon apurou o caráter destemeroso nas livres trajetórias da natureza. Não foi pedir às Universidades os diplomas de sapiência graduada. Não foi buscar, nos salões oficiais, o prestigio dos favoritismos transitórios. Não mergulhou no sofisma livresco as claridades do espírito. Sua mestra exclusiva foi a observação diuturna dos seres e das coisas. Foi a vida, em suma.

A realidade que os seus vinte anos encontraram não podia ser mais dura. O país estava confiado, praticamente, a um círculo estreito de indivíduos que jogavam, desabridamente, com os seus destinos, impedindo o surto da consciência coletiva. O povo sem mestres e os campos sem amanho estavam entregues às mais solertes explorações. Sobre todas as tiranias, a pior, sem dúvida, era a do espírito. Dentro do México só havia uma opinião: a de Don Porfirio. A imprensa era porfírista, o exército era porfirista, o ensino era porfirista, o clero era porfirista, a sociedade era porfirista. No seio dessa unanimidade, as massas não tinham assento, nem para concordar. Contribuíam, apenas, para as estatísticas, como um valor econômico.

Obregon viu tudo isso, de perto. Ao contrário de muitos, porém, não se satisfez com um exame superficial do momento. Não se tornou descontente por ambição recalcada, senão pelo conhecimento direto dos fenômenos que analisava. Ele sentiu, desde logo, que a Revolução decorria da natureza das coisas, porquanto o país estava governado por homens que procuravam contrariar a sua verdadeira realidade étnica e histórica. A palavra famosa de Juarez sobre a intervenção francesa, confirmava-se mais uma vez, nos derradeiros tempos do porfirismo: "Ia paz interna es imposible cuando no hay respecto al derecho ajeno".

Refletindo os anseios da maioria, Obregon compreendeu a necessidade de dar ao governo mexicano feição nacional. Para não agravar o conflito entre o branco e o íncola, tão perturbador para a vida intima da pátria, ele percebeu que era imprescindível a participação direta do elemento autóctone nos negócios públicos. Inteligente e sagaz, o índio mexicano não se adapta facilmente aos postulados da civilização ocidental. Herdeiro de raças superiores, pôde exibir, à semelhança do egípcio ou do assírio, uma nobre tradição de cultura humana, mais vigorosa que a de qualquer civilização pré-colombiana.

Ora, pois, forçar onze milhões de indivíduos à observância dos usos e costumes de cinco milhões, descendentes dos conquistadores, seria prejudicar, talvez irremediavelmente, a marcha progressiva da nacionalidade. Equilibrar essas duas forças, a imaginação do índio e a vontade do branco seria, ao revés, realizar obra de lúcida política.

Os homens capazes de tal empresa não eram, certamente, os que apoiavam o Estado porfirista. Aos intelectuais extremes, como José Vasconcelos, e aos campesinos, como Álvaro Obregon, caberia a glória de preparar as massas para a defesa dos seus direitos. Quando a Revolução, com o baque da tirania, começou o ciclo das lutas intestinas, só as antigas classes dirigentes não quiseram entender a razão da nova lei. Chegando ao poder, pela armadura de  uma vontade inflexível, depois de sobrepujar o caudilhismo de Pancho y Vila, Obregon não desmentiu as suas origens nem falseou os princípios da Revolução, a exemplo de Carranza.

Seu primeiro cuidado foi o de nacionalizar o México. Abriu escolas, aparelhando-as com os mais aperfeiçoados sistemas pedagógicos, repartiu a terra, como na parábola evangélica, entre os humildes, tornou o subsolo patrimônio da nação e organizou os sindicatos operários e agrários. O México, por tantas décadas apartado da vida intelectual, reformou-se espiritualmente. A palavra das Universidades, das academias, das escolas secundárias e primarias veio ao encontro da multidão, e, das fileiras obscuras do proletariado, repontaram tipos dominantes.

Nem um chefe de Estado me impressionou tanto pela simplicidade, como esse que soube morrer na vanguarda do seu povo. Na noite em que ele me recebeu, o Castelo de Chapultepec, dentro do bosque milenar picado de luzes vivas, não parecia um palácio oficial, mas hospitaleiro solar de outras idades. Estadistas, poetas, guerreiros e artistas confundiam as vozes, naquelas salas espaçosas, em que pulsaram corações de imperadores e caudilhos. Pensei no Renascimento. E era o renascimento de uma raça aquele príncipe, distraído dos protocolos e dos títulos, que atingira a mais alta nobreza humana, pelo caráter, aquele príncipe, cuja singeleza não tentaria, talvez, a pena dos historiadores retóricos.

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...