quinta-feira, 11 de julho de 2019

Os deuses gregos (Estória), de Monteiro Lobato




Os deuses gregos
No dia seguinte dona Benta esqueceu dos judeus e pegou nos gregos.
– Também em terras banhadas pelo Mediterrâneo, disse ela, outro povo apareceu, de muita importância na história do mundo: os Helenos ou Gregos. Tinham o nome de helenos porque foi um homem chamado Heleno, de origem ariana, que se estabeleceu naquelas terras e formou o povo. Hélade, era o nome da terra dos helenos.
Começa-se a ouvir falar desta gente ali pelo ano 1.300 antes de Cristo, tempo em que os hebreus estavam deixando o Egito. Os gregos não tinham um deus único, como os judeus, nem adoravam astros, como os babilônicos. Possuíam doze deuses principais e um certo número de deuses menores, que moravam no Monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia. Lá viviam uma vida muito semelhante à dos homens, porque os deuses gregos eram humaníssimos, isto é, tinham o mesmo temperamento e as mesmas paixões das criaturas humanas. A única diferença era que, como deuses, podiam mais do que os homens. O alimento deles chamava-se ambrosia e sua bebida, néctar.
– Que gostoso devia ser! exclamou Pedrinho. E não se sabe hoje o que eram esse néctar e essa ambrosia, vovó?
(Para mim, a tal ambrosia era pamonha de milho verde, murmurou Emília ao ouvido do visconde).
– Não, meu filho, respondeu dona Benta. Não se sabe hoje, nem se soube nunca. Se os deuses permitissem que os homens lhes desvendassem todos os segredos, os homens acabariam virando deuses. Por isso castigavam os abelhudos, como um tal Prometeu que furtou o fogo do céu para o dar aos homens. Como castigo, Zeus, o dono do fogo, amarrou o ladrão a uma montanha de nome Cáucaso, onde um abutre lhe vinha bicar o fígado todos os dias.
– Bicar só, vovó? Por que não o comia duma vez?
– Sim; o castigo era esse – um bicamento do fígado que durasse eternamente.
– Eternamente? Quer dizer que ele ainda está no Cáucaso?
– Não; meu filho. Aquele tremendo Hércules, cuja lenda você sabe, foi lá e libertou-o. Mas os deuses gregos eram os seguintes: Zeus, ou Júpiter, o pai de todos e o mais poderoso. Senta-se num trono com uma águia aos pés, tendo na mão o raio, isto é, um zigue-zague de fogo. Quando queria vingar-se de alguém, arremessava esse raio, seguido dum trovão – como um índio arremessa a lança. Depois vinha Hera, ou Juno, mulher de Zeus e a primeira das deusas; Juno trazia sempre consigo um pavão. Depois vinham os outros.
– Diga o nome de todos, vovó, pediu Narizinho.
– Havia Poseidon, ou Netuno, que era irmão de Zeus e governava os mares num carro puxado por uma parelha de cavalos marinhos, tendo na mão o tridente – enorme garfo de três pontas. Netuno provocava tempestades, ou fazia as tempestades cessarem com uma simples pancada de tridente nas ondas. Havia Hefestos ou Vulcano, o deus do fogo. Era um ferreiro manco, que trabalhava numa oficina dentro da Terra. A fumaça da sua forja saia pela cratera dos vulcões – que se chamaram assim por causa dele, Vulcano.
Havia Apolo, que era o mais belo de todos e governava a luz e a música. Todas as manhãs Apolo aparecia no horizonte guiando o carro do Sol e dava volta no céu para iluminar o mundo. Havia Ártemis ou Diana, irmã gêmea de Apolo, deusa da Lua e das caçadas. Diana vivia de arco e flecha em punho, perseguindo os animais. Havia Ares ou Marte, o terrível deus da guerra, que só estava satisfeito quando via os homens a se matarem uns aos outros. Havia Hermes ou Mercúrio, o mensageiro dos deuses, o leva e traz. Tinha asas no capacete e usava uma vara mágica de paz, que posta entre duas pessoas em luta imediatamente as fazia amigas.
– Já vi um retrato de Mercúrio, disse Pedrinho, mas a vara mágica tinha duas cobras enroladas.
– Sim, isso foi duma vez em que topou duas cobras engalfinhadas e interpôs a vara mágica para separá-las. Em vez de se separarem, as cobras enlearam-se na vara e nunca mais dali saíram. Chamava-se caduceu, essa vara mágica de Mercúrio.
– A senhora já falou de oito deuses. Faltam ainda quatro, vovó.
– Havia Atena ou Minerva, a deusa da sabedoria, que nasceu dum modo muito especial. Júpiter teve uma dor de cabeça horrível, que não passava com aspirina nenhuma. Desesperado, chamou Vulcano para que lhe rachasse a cabeça com um golpe de malho. Vulcano obedeceu; mas em vez de ficar a cabeça de Júpiter em papas, deixou escapar, armada de escudo e lança, a sua filha Minerva!
– Que beleza! exclamou a menina.
– Havia Afrodite ou Vênus, a deusa do amor. Vênus era a mais bela das deusas, como Apolo era o mais belo dos deuses. Nascera da espuma do mar e tinha um filhinho de nome Eros ou Cupido, habilíssimo em flechar corações com flechas invisíveis. Havia Vesta, a deusa do lar e da família. Havia Deméter ou Céres, deusa da agricultura. Havia Plutão...
– Pare, vovó! gritou Pedrinho. Com Ceres já contei doze. Esse Plutão é demais na dúzia.
– Eram doze no Olimpo, explicou dona Benta, mas havia ainda este Plutão, irmão de Júpiter, que tomava conta do inferno. A dúzia era realmente de treze. Isto falando só dos graúdos, porque com deuses menores e semideuses eram mais. Lembro-me das Três Parcas, das Três Graças, das Nove Musas. Só aqui temos quinze.
A religião grega nada tinha de semelhante à dos hebreus ou egípcios. Era alegre e poética. Em vez de adorarem os deuses, os gregos invocavam-nos sempre que tinham necessidade de auxílio. Também lhe faziam sacrifícios, isto é, ofertas de animais ou coisas. Matavam o pobre animal e o queimavam numa pira, ou altar, para que a fumaça fosse enternecer o nariz dos deuses no Olimpo. Durante esses sacrifícios prestavam atenção a tudo quanto se passasse em redor, afim de descobrirem algum indício de que o deus estava se agradando ou não. Esses indícios chamavam-se presságios. Um bando de aves que voasse no momento, um trovão que trovejasse, um raio que caísse – tudo eram presságios, bons ou maus, conforme a interpretação dada.
– E os oráculos, vovó? perguntou a menina. Tio Antonio disse outro dia que a senhora para ele era um oráculo.
– Pobre de mim! exclamou dona Benta com modéstia. Apenas sei um bocadinho mais que ele, porque sou mais velha. Que é oráculo? Vamos ver isso. Perto da cidade de Atenas, que era a principal da Grécia, erguia-se, nas encostas do monte Parnaso, uma cidadezinha de nome Delfos. Em seus arredores havia uma racha na montanha, donde escapava um gás, tido como hálito de Apolo. Esse gás deu origem à instituição do famoso Oráculo de Apolo em Delfos.
– Como era isso, vovó?
– Assim. Uma sacerdotisa, ou pitonisa, sentava-se numa trípode, ou banqueta de três pernas, colocada no mais forte do gás. Passado uns minutos, a ação do gás a fazia cair em estado de delírio. Era então consultada por um sacerdote, e suas respostas, em geral confusas ou sem sentido como as de todas as criaturas fora de si, eram interpretadas, valendo como resposta do próprio deus Apolo. Vinha gente de muito longe consultar o afamado Oráculo de Delfos, que na maior parte das vezes dizia as coisas de modo a tanto poder ser carne como peixe. Um rei, por exemplo, o consultou sobre o resultado da guerra declarada a outro rei. O oráculo respondeu: ‘Um grande reino está prestes a cair.’ O rei ficou na mesma. Que reino ia cair, o seu ou do inimigo?
– Bem espertinha a tal pitoniza! murmurou Pedrinho.”




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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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