quinta-feira, 11 de julho de 2019

Os gregos brigam entre si (História), de Monteiro Lobato


Os gregos brigam entre si
– Que pena, vovó, exclamou Narizinho, que essa desgraça viesse estragar um tempo tão bonito.
– A peste não foi nada, minha filha, apesar da grande perda que causou com a morte de Péricles. Muito pior do que a peste foi o que veio depois...
– Será possível que haja alguma coisa pior que a peste? admirou-se Pedrinho.
– Há, sim, meu filho. A Guerra é cem vezes pior, sobretudo a guerra civil, isto é, guerra dentro de casa, entre filhos do mesmo país. Pois logo que o horror da peste passou, os horrores da guerra vieram estragar a linda Grécia daquele tempo.
– Conte! conte! pediram os meninos – e dona Benta contou.
– A causa da desgraça foi o ciúme que depois da vitória sobre os persas, Atenas começou a inspirar. Os espartanos tinham um grande orgulho da superioridade dos seus soldados, que realmente eram os primeiros do mundo. Atenas, que também tinha excelentes soldados, depois da grande vitória da sua esquadra em Salamina ficou, sem querer, mais do que Esparta, pois possuía uma esquadra poderosa. A bela reconstrução de Atenas feita por Péricles e o florescimento de todas as artes não incomodavam Esparta, porque os espartanos não ligavam grande importância à cultura. Mas a esquadra ateniense incomodava. Esparta ficava no interior e por isso não podia ter esquadra, e como não podia ter esquadra não queria que Atenas a tivesse. Considerava desaforo. Daí nasceu a guerra.
– Mas não eram um mesmo país, Esparta e Atenas?
– Eram e não eram. Ambas faziam parte da Grécia, mas cada qual se governava como queria. Esparta estava situada num pedaço da Grécia chamado Pe-lo-po-ne-so, e por isso essa terrível luta entrou para a História com o nome de Guerra do Peloponeso. E sabem quanto tempo durou? Vinte e sete anos!
– Que horror, vovó! fez Narizinho. Vinte e sete anos! Imaginem...
– Foi uma luta horrorosa, com vantagem ora para este lado, ora para aquele, mas Esparta, que quase sempre ficava de cima, acabou tomando a cidade de Atenas. Depois disto entrou na briga outra cidade grega.
– Tebas, a qual conseguiu o milagre de vencer a invencível Esparta. Os espartanos ficaram muito admirados de ver forças inimigas em seu território, coisa que durante cinco séculos jamais acontecera.
Mais tarde, quando for tempo de ler uma história do mundo das grandes, vocês verão tudo quando sucedeu nesses vinte e sete anos de luta. Por agora basta que saibam que a Guerra do Peloponeso enfraqueceu e arruinou quase todas as cidades gregas, pondo fim da importância da Grécia no mundo.
Durante esse tempo viveu em Atenas um grande filósofo de nome Sócrates, que considerado o melhor e mais sábio homem que a humanidade produziu. Sócrates andava pela cidade ensinando os moços a pensar; mas em vez de ensinar como outros filósofos, dizendo isto é assim ou assado, empregava outro sistema – fazia perguntas e ia indo até que por si mesmo o discípulo achasse a resposta exata. A esse sistema ficou ligado o seu nome. Chama-se método socrático.
Sócrates era muito feio; careca e de nariz arrebitado. Mas apesar de serem os atenienses grandes amigos da beleza, todos gostavam dele, porque se não possuía a beleza física tinha em compensação todas as belezas morais – e não há belezas que valham estas.
Sócrates era casado com Xantipa, uma verdadeira jararaca. Xantipa jamais compreendeu o marido, ao qual vivia xingando de vadio, e indolente, de traste inútil. "Este diabo leva a falar, a falar o tempo todo e nada de aparecer aqui com dinheiro" – devia ser a xingação diária dessa senhora. Certa vez ela o descompôs com tamanha fúria que Sócrates achou prudente fazer uma retirada estratégica. Assim que ia saindo, Xantipa jogou sobre ele um balde d'água. O grande sábio apenas murmurou: "depois da trovoada vem a chuva" – e nada mais.
– Ah, se fosse comigo! exclamou Pedrinho, arregaçando as mangas.
– Batia-lhe com um pau, não é verdade? disse dona Benta. Pois seria um ato mui vulgar e reles. Não há brutamonte na roça que não faça o mesmo. Justamente porque em vez de bater em Xantipa, Sócrates respondeu de maneira tão fi-lo-só-fi-ca, é que estamos a falar nele. Procure nunca ser vulgar, Pedrinho, que você acertará.
Sócrates não acreditava nos deuses gregos, embora nada dissesse em público, porque os gregos não admitiam que ninguém brincasse ou descresse de tais deuses. Mas um homem com a cabeça de Sócrates não podia tomar a sério o senhor Júpiter nem a senhora Vênus, e por isso, sem falar mal deles, também não falava bem. Calava-se. Era como se não existissem.
Foi o bastante para incorrer nas iras do povo, sendo denunciado como inimigo dos deuses e corruptor da mocidade. Resultado: condenação à morte.
– Que horror, vovó! Já estou ficando com ódio nos gregos. Por uma coisinha a toa mataram Fídias, que era o maior escultor; agora vão matar Sócrates, o melhor e o mais sábio dos homens! Isso é demais. E com certeza o enforcaram...
– Felizmente não chegaram a essa monstruosa brutalidade. Intimaram-no a beber uma taça de chá de cicuta, planta venenosíssima. Sócrates obedeceu – e morreu a mais bela das mortes, rodeado de seus queridos discípulos em lágrimas. Tinha então setenta anos. A morte de Sócrates é uma das cenas mais altas do drama da humanidade.
Emília declarou que ia plantar cicuta na horta.
– Para quê? Perguntou Narizinho.
– Para não ser preciso enforcar o visconde, se alguma dia ele for condenado à morte...


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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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