quinta-feira, 11 de julho de 2019

A Idade de Ouro (História), de Monteiro Lobato



A Idade de Ouro
– Já falamos nas Idades da Pedra e do Bronze, continuou dona Benta. Vamos ver agora um pedacinho duma verdadeira Idade de Ouro, ou época em que o bem estar do povo trouxe um grande florescimento das artes e ciências.
Depois de terminada dum modo tão feliz a guerra com a Pérsia, os atenienses voltaram para Atenas e reconstruíram as casas. E como eram um povo de grandes dotes artísticos, aproveitaram a ocasião para fazer de Atenas a mais bela cidade do mundo. Tudo os ajudou – tudo concorreu para isso.
– Quem era nesse tempo o chefe de Atenas?
– Oh! Atenas tinha um grande chefe chamado Péricles. Esse homem não era rei, nem tirano, mas possuía tal inteligência, falava tão bem, mostrava-se tão hábil político, que os atenienses começaram a segui-lo em tudo – e durante muitos anos Atenas foi na realidade governada por ele. Péricles lembra um capitão de team de futebol altamente querido por todos os jogadores em vista de suas qualidades. Um capitão desses leva a equipe a operar prodígios – e vencer todos os jogos. Assim foi Péricles com a Grécia.
Surgiram por esse tempo grandes filósofos, grandes escritores, grandes poetas, grandes escultores, grandes arquitetos, grandes tudo.
– Pare um pouco, vovó, disse a menina. Eu vejo sempre falar em filósofo e até já tenho empregado essa palavra; mas na verdade não sei muito bem o que quer dizer. Para tia Nastácia, filósofo é um sujeito de calça furada, que anda distraído pela rua, tropeçando nos sapos. Será isso mesmo?
– Não, minha filha. A palavra "filósofo" quer dizer "amigo da sabedoria". Os filósofos são o complemento dos cientistas. Estes vão até o ponto em que podem provar o que afirmaram. Desse ponto em diante acaba-se a Terra da Certeza e começa a Terra do Pode Ser. Nesta Terra é que moram os filósofos. Se um filósofo provar por A + B a sua filosofia, mas provar de verdade...
–... ali na batata... ajudou Emília.
–... provar experimentalmente, ele deixa de ser filósofo, passa a ser cientista.
–... muda-se para a Terra do é... – ajudou de novo a Emília, e Narizinho advertiu-a de que dona Benta não precisava de ajutórios.
– Pois é isso. Por causa da grande liberdade de pensamento floresceu em Atenas um grupo de filósofos dos mais notáveis. Até hoje o que os filósofos gregos ensinaram tem grande valor, porque é difícil haver inteligência mais penetrante e clara do que a deles. Ao lado dos filósofos apareceram grandes escritores, que compuseram notáveis peças de teatro.
– O Teatro grego era como o de hoje?
– Não. Era coisa muito mais importante e muito diferente do de agora. Os espetáculos realizavam-se ao ar livre e só de dia, à beira de encostas de morro, cuja inclinação servia de arquibancada. Quase nenhum cenário, e em vez de orquestra havia um coro de cantores ou recitadores. Os artistas usavam máscaras, cômicas ou trágicas. Ainda hoje, na ornamentação dos nossos teatros, vemos esculpidas essas máscaras ou caretas gregas.
Atenas tirara o seu nome do apelido grego da deusa Atena. Por esse motivo os atenienses resolveram erigir um monumento digno dela, no alto duma colina, o qual recebeu o nome de Parthenon, ou templo da virgem. Guardem esta palavra, porque o Parthenon é considerado como a mais perfeita obra prima da arquitetura antiga.
– Ainda está de pé, vovó?
– Infelizmente, não. Subsistem ruínas. Dentro do Parthenon havia uma estátua de ouro e marfim feita por um escultor chamado Fídias, o qual tem fama de ser o maior escultor da antiguidade. Essa estátua desapareceu. Foi uma perda de que o mundo artístico jamais se consolou.
Fídias ainda fez outras estátuas para ornamento exterior do Parthenon; algumas ainda hoje são vistas nos museus da Europa, embora bastante mutiladas, esta sem cabeça, aquela sem braços. Tão célebre ficou Fídias com os seus trabalhos no Parthenon, que foi convidado para esculpir a estátua de Júpiter erigida em Olímpia. Dizem os seus contemporâneos que essa estátua era um prodígio de beleza. E devia ser, pois foi incluída entre as Sete Maravilhas do Mundo.
Apesar de ser o maior escultor da época, Fídias morreu na prisão por um crime que hoje nos faz rir. Imaginem vocês que no escudo da estátua de Minerva ele reproduziu, numa das figuras de certa cena, a sua própria cara e noutra, a cara do seu amigo Péricles. Pois foi o bastante para ser denunciado como sacrílego, julgado e condenado à prisão – e na prisão morreu.
– Por falar em escultura, vovó, li ontem uma história de colunas jônicas e coríntias que não entendi. Explique-me isso.
– Nos monumentos gregos havia três espécies de colunas, a coluna dórica, a coluna jônica e a coluna coríntia. A coluna dórica era a mais simples; tinha no alto o que chamam capitel, formado como que de um ladrilho tampando um prato fundo; e em baixo, ou na base, nada tinha – enfiava-se diretamente na terra. A beleza deste tipo de coluna residia na simplicidade e na ideia de força que dava. Por isso foi considerada como estilo masculino.
– Desaforo! Protestou Narizinho.
– A segunda coluna, a jônica, possuía uma base sobre a qual se assentava; e tinha no capitel, em vez do prato fundo tampado com o ladrilho, uns ornatos como voltas de caramujo. Era considerada como de estilo feminino.
– Toma! Gritou Pedrinho piscando para a menina. Quer dizer que vocês mulheres são caramujas.
– O terceiro estilo de coluna, continuou dona Benta, era o coríntio, o mais luxuoso, o mais enfeitado. A coluna coríntia tinha o capitel cheio de coisas, tais como folhas de acanto e outras.
– Acanto? Que é isso?
– Uma planta da Grécia que ficou célebre nas artes – uma espécie de serralha. Dizem que o capitel coríntio foi criado do seguinte modo. Um arquiteto, que andava desenhando colunas, passou um dia pelo cemitério e viu sobre o túmulo de uma criança qualquer coisa que o impressionou. Os gregos tinham o costume de depositar no túmulo das crianças cestas de brinquedos, em vez de coroas ou flores. Naquele havia sido depositada, meses atrás, uma cesta de brinquedos coberta por um ladrilho. Com o tempo, um pé de acanto nasceu por ali e envolveu a cesta em suas folhas, formando uma coisa tão linda. Tão linda que o arquiteto parou e copiou o jeitinho, para depois o aplicar no capitel duma coluna – que ficou sendo a coríntia.
– Que interessante, vovó! exclamou Narizinho. Veja como uma coisa puxa outra...
– Infelizmente, aquele glorioso período da vida grega não durou muito. Veio uma peste horrível, que dizimou os atenienses, não perdoando nem ao próprio Péricles. O grande homem dedicara-se demais ao socorro da cidade – e tantos pestosos recolheu em sua casa, que também apanhou a peste e foi-se...

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José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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