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7/14/2019

São José (Conto), de Tomaz Lopes



São José
(Lenda Cristã)
O velho cura morava na aldeia, e só muito raramente, com mais sacrifício do que esforço, arrastava a sua velhice pachorrenta e a sua discreta virtude até o burburinho da grande cidade tão cheia de fortuna e de miséria, eternamente escabujando no volutabro do vício. Chamava-se Bernardim, e era um homem de altura meã, quase gordo, com um ar sadio de campo, olhos pequeninos e claros, cabelos brancos e faces ainda de punícea cor, onde começava a sulcar o vale das rugas.
A sua casa no campo era o certo abrigo dos pobres, porque nunca lamento ou suplica, sono, tristeza ou fome tinham ficado esquecidos à soleira como cães sem dono e sem destino. A amigo ou estranho, era sempre de bom rosto que o velho dava pouso. Era uma singela casa no meio de um tosco jardim onde chorava a murmura e sonora queixa de um regato; e esse regato era de certo a única lamentação que repetidamente passava à sua porta. Na primavera as flores perfumavam toda a casa; brancas santas e alvos santos de gesso e de mármore surgiam do oratório durante os três meses da suave estação, como flores nascendo de flores; no inverno, quando o céu era gris e os caminhos eram brancos, à boca do seu calorífero vinham os pobres aquecer-se do rude frio.
O doce Bernardim, homem simples e bom, sem a enredada sabedoria dos magnos sacerdotes, sem largos voos de imaginação, pouco se aprofundara em dogmas e conceitos; cumpria fielmente as leis de Jesus com a mesma facilidade inocente com que um fruto sai de uma flor. Assim, não maldizia porque de ninguém se queixava; era esmoler porque se condoía de quem era pobre e tinha fome; não mentia por ignorar que outra coisa além dos beijos e da verdade pudesse pousar em humana boca, — nem mesmo as abelhas que esvoaçavam em torno dos lábios de Platão; não praguejava porque de nada serve a blasfêmia; não odiava porque todos o amavam; era casto porque tinha bons pensamentos. Lera pouco durante a longa existência; sabia que no princípio Deus criou o céu e a terra, depois separou a luz e a treva... Não conhecia histórias de raças e de conquistas, nem crônicas de guerras religiosas, nem falsidades e manhas de inimigos. A Inquisição com todos os suplícios e todas as vítimas era uma espécie de lenda para amedrontar os ateus, assim como o papão era uma fantasia para intimidar as crianças; o Papa era um padre muito santo e muito sábio que morava em Roma; Roma era uma cidade vizinha de sua França. Com o latim do Seminário dizia missa, fazia citações ao amigo farmacêutico, pregava às vezes no púlpito e ensinava declinações e conjugações: ancila, ancilae; fero, fers, tuli, latum, ferre...
Gostava de passar bem porque dizia que não era santo; e quando sentado à mesa, com a porta aberta para quem tivesse fome e quisesse entrar, tendo dado esmola e distribuído pães (mais pão do que conselhos), orava e acalmava o estômago com o pão que é o corpo, com o vinho que é o sangue de Jesus, muitas vezes pensava: — Coitadinho de São João que comia gafanhotos!...
Era tranquilo e meigo; qualquer sofrimento lhe causava pena, para toda estúrdia encontrava uma desculpa, e para os crimes tinha sempre um perdão.
Certa vez, numa tormentosa noite de inverno, quando lá fora caía o gelo e rugia a fúria do sudoeste digladiando as árvores nuas, ele deitado, acomodado começava a dormir; de repente escancarou-se a porta e entrou pelo seu quarto um homem todo coberto de Sangue e de medo.
— Meu Padre!
— Que é, filho?
E o assassino tremendo como se já estivesse diante da máquina sinistra e fatal da guilhotina:
— Matei meu irmão!
O Padre Bernardim olhou-o, mal compreendendo as suas palavras loucas.
— Teu irmão?
— Sim, meu irmão!
Com uma infinita calma e uma suave ternura, o velho sacerdote acrescentou:
 — Que horrível crime, meu filho! Deus te perdoe!
Persignou-se, — e como tinha sono continuou a dormir.
Toda a aldeia o estimava; havia moças que batizara e casara; quando saía, já.se apoiando a um trêmulo bordão, as mulheres vinham dos casais à porta, à espera de sua benção, e ele passava sem se apressar e sem se admirar, como se estivesse em casa ou como se a aldeia fosse a continuação de sua casa. E quantas vezes, quando havia lua no céu, as crianças se reuniam à sua porta, e o Padre, ingênuo e bom começava com sua voz repousada e tranquila:
— Era uma vez uma camponesa que se chamava Joana...
***
Foi nos primeiros dias de fevereiro que uma vez, por uma tarde fria, quase à hora da noite, um homem pobremente vestido de calça e blusa, com uma espécie de gorro de operário, entrou em casa do Padre Bernardim. A classe terminara. Bernardim estava só no seu quarto, quando duas pancadas discretas ressoaram à porta. Tão habituado estava o Padre a todas as visitas, que nem de leve se admirou, e calmamente disse:
— Entre!
O homem tão modestamente vestido de marceneiro penetrou rio seu quarto.
— Meu Padre, eu sei que vai amanhã à cidade, e lhe venho pedir um favor.
Tanta doçura havia nas palavras do desconhecido, tanta certeza, tão amável e boa era a sua fisionomia, que o velho sacerdote teve a esquisita vontade de lhe beijar as mãos.
— Mas como soube que eu vou amanhã à cidade?
O carpinteiro tirou o gorro passou a mão pelos cabelos e pela barba castanha, e falou com uma voz persuasiva:
— Não lhe posso dizer ao certo como tive notícia de sua visita amanhã a Paris; mas o que é verdade é que há mais de quinze dias eu ando à sua busca para lhe pedir a graça a que vim. Sempre, infelizmente tem havido desencontro entre nós; aqui estou porém; e mesmo que o Padre quisesse adiar a viagem, é tão caridoso o que lhe vou pedir, que certamente acederá à obra de tanta misericórdia e caridade!
— Fale, irmão!
— Depois de amanhã é o Carnaval; é a loucura da embriaguez e da orgia. Num dos centros mais populosos e vergonhosos da cidade mora uma pobre pecadora que há seis meses definha, vencida pelo mal terrível da tuberculose. A casa em que habita é muito mais que suspeita; desde janeiro até São Silvestre estrebucha entre as quatro paredes uma horrenda bacanal; é lá a reunião dos vadios, dos alcaiotes, dos companheiros do vício, dos sodalícios da orgia. É a vilança da inteligência e do caráter, a pândega pulha e ignóbil de bordel e de taverna! A criatura de que falo muito me interessa; parece-me que no mato, descobri um remédio que si não é cura, é ao menos um alívio ao doloroso mal dos pulmões. Mas me diga, irmão: eu, um pobre carpinteiro posso entrar assim de blusa, sem chamar a atenção numa casa de tanto pecado e. tanto luxo? O meu amigo é um sacerdote; e para que não desperte suspeita, quando levar o remédio ouvi-la-á em confissão, pois a criatura, enfermiça há muito, anda agora a morrer. Bastará que chegue à sua casa às dez horas da noite, quando os rapazes e as mulheres saírem em algazarra para o ruído do Carnaval. O seu quarto é no segundo andar, num corredor, terceira porta à esquerda. Vá, meu irmão, e fique certo de que faz uma grande obra de caridade. Vá, ela o espera!
E o marceneiro deu a rua e o número da casa.
Com tanta firmeza ele falara que o Padre não pensou em por a menor objeção; apenas com um sorriso que a tristeza severizara indagou:
— E o remédio que lhe devo dar, onde o encontro?
Quedou-se alguns instantes pensativo com o sobrecenho carregado o desconhecido; parecia que uma grande magna lhe lancinava a alma; por fim, murmurou:
— Irmão, ela já está desenganada pelo médico!
— Sim, mas o seu remédio descoberto no mato?
O carpinteiro meneou a cabeça negativamente.
— É inútil levar-lhe remédio! Vejo que é tarde! Leve-lhe a extrema unção!
Bernardim curioso ainda perguntou se ele a vira ultimamente.
— Não, eu nunca a vi!
Até hora alta da noite os dois homens conversaram; um do outro se agradara na simplicidade que os fazia parecidos; e era tão simpática a convivência dos seus espíritos que nem um reparou na madrugada que vinha nascendo no céu...
***
Paris estava no deslumbramento da festa louca. Explodiam por toda a parte orquestras de assovios, faiscavam iluminações, retumbavam clamores de orgia. Já passavam os grupos para os bailes numa ruidosa algazarra a que se sentia o vinho. Era o domínio do rega-bofe e da troça, da pândega desconjuntada, da pilhéria, da chalaça, da chacota, da laracha, do insulto mascarado a que se chama geralmente espírito... Passavam pierrots, arlequins, clowns, dominós; todo mundo tinha uma fisionomia mais ou menos mascarada; tilintavam guizos, sacudiam-se canções lascivas de bordel. Era o Carnaval. Era a intriga elegante para a gente fina, era a pilhéria boçal para os rudes; eram os vinhos Champagne para os ricos e clubmans, era a aguardente para os pobres e galhardos. Para muitos era a verdade. Vinham os grupos e os carros de todas as ruas e penetravam ruidosos nos boulevards festivos. A grande, a gloriosa, a imortal cidade parecia toda entregue à momice e à graçola do entrudo. Onde estava o grande cérebro de Paris produzido por centenas de edições, em milhares de brochuras, a seiva fecunda do seu grande espírito pelas artes e pelas ciências? Onde os cursos em que se aprendem todos os conhecimentos do saber humano, em que se preveem todas as hipóteses, em que se investigam todas as causas, e se determinam todos os efeitos? Paris descansava; o Carnaval se estendia sobre a opulenta cidade como um grande polvo que abre tentáculos...
Caía a neve; choviam policromias de confetti; e pairava no ar um cheiro de harém, e subia no espaço um perfume de absinto...
Às dez horas da noite, de uma casa da rua des Petits Correaux saiu um grupo alegre de mascarados e mascaradas; carruagens se aproximaram; houve uma grulhada de vozes, uns risos e uns gritinhos nervosos, um ar de cochicho e segredo que há sempre entre máscaras para que toda gente saiba que eles se conhecem entre si; depois um ajuntamento de curiosos, e os carros partiram. Aquele trecho da rua ficou por instante silencioso; nesse momento, um carro modesto parou; desceu o Padre Bernardim acompanhado pelo acólito, e os dois entraram na casa de onde haviam partido os mascarados. Defronte, um homem de blusa de operário e que parecia um marceneiro, rondava.
***
O velho Bernardim sentiu-se contrafeito ao penetrar naquele corredor, ao subir aquela escada onde pairava um ar de mistério e de orgia, onde havia pouco roncavam deboches e bebedeiras, onde passaram homens sem fé e mulheres seminuas, e onde entrava agora com Jesus Cristo, para dar a extrema-unção a uma moribunda. Mas lembrava-se das palavras do seu visitante: "Ela o espera!" Ela o esperava; mas onde? Todas as salas estavam vazias; por toda parte, em vez de remédios, jaziam garrafas esgotadas de vinhos Seus pudicos olhos surpreendiam interiores desonestos de alcovas lascivas... O acólito lembrou que era no segundo andar, terceira porta à esquerda. Subiram uma nova escada, chegaram ao corredor; mas pairava o mesmo silêncio, descansava o mesmo abandono. O velho padre estava receoso; temia que entrasse alguém e o visse conduzindo o Salvador aquela casa de pecado e de vício. E se voltassem de repente aquelas mulheres e aqueles homens? Decerto o desrespeitariam, tontos pela loucura da bebida e do Carnaval. Foi com uma vaga esperança de fugir àquela casa sem fé e sem Deus, que ele disse ao companheiro:
— Parece que nos enganamos! Não há ninguém na casa!...
Mas este não respondeu: com a mão em concha sobre a orelha, parecia ouvir atentamente.
— Que é que fazes?
— Não está ouvindo um rumor que parece um gemido?
Efetivamente aos ouvidos do Padre chegavam agora uns dolorosos e abafados ais. Encaminharam-se mais para porta, e bateram de leve; ninguém respondeu; outra vez, com os nós dos dedos, Bernardim de mansinho fê-la ressoar; também não houve resposta, mas aos dois amigos pareceu que o sussurro cessara. Por fim o rapaz entreabriu a porta, e o Padre entrou sozinho.
***
Longo tempo durou a confissão.
Quando o Padre abeirou-se do leito da enferma, quando ela o viu, não mostrou o menor espanto nem o mais ligeiro sobressalto; apenas nos seus grandes olhos muito fundos e sofredores, fulgiu rápida e fugace uma centelha de alegria. O velho sacerdote olhou em volta de si. O quarto era pequeno, mas conservava um luxo atrevido e convencional de veludos e de cetins; o leito largo, fofo, sensual, era encimado por um baldaquino de seda vermelha como sangue; e à cabeceira, pregado à parede, um grande espelho refletia o quadro triste de uma doente quase na agonia. O Padre que vencera facilmente a vergonha de entrar naquela casa suspeita, escrupulizou diante daquele cristal de serralho, luzente e obsceno, e desviou os castos olhos. Perto da porta um divã ostentava a sua cor vermelha também; havia espalhadas duas ou três cadeiras largas; o lavatório estava cheio, transbordando de frascos secos de essências e caixas vazias de pó de arroz ao lado um átrio onde descansavam os três volumes do Chevalier de Faublas e uns números velhos de Sans-Gene, L'Indiscret, Culotte Rouge, La Dame aux Camélias", e uma história de Napoleão I; perto da cama estava a mesinha; havia frascos de remédio, — e uma vela iluminava uma pequena e tosca imagem de São José Bernardim, com uma voz tranquila deu as boas noites à rapariga, e indagou solícito:
— Sente-se melhor? Gemia tão baixinho que mal pude ouvi-la!
Ela fez um esforço cansado e murmurou com tristeza:
— Tinha medo de incomodar os que se divertiam! Já ontem quiseram mandar-me para o hospital! Diziam que eu ia estragar-lhes o entrado... Não me queriam dar um confessor! Mas eu. sempre tive a esperança de não morrer com tanta culpa!
E olhou com um ar devoto para a imagem de São José...
— Pois aqui estou, minha filha, para ouvi-la e perdoá-la!
A pobre criatura ficou com os olhos rasos de lagrimas felizes; e com a voz trêmula indagou curiosa:
— Diga-me, meu Padre, conhece-me? Como soube que estava doente?
— Um homem que foi à minha casa e me falou do seu estado... Não o conheço; creio que é um carpinteiro.
— Talvez queira fazer o meu caixão...
— Talvez queira salvá-la, minha filha!
Ela contou-lhe a sua história. Era a mesma de sempre, dolorosa e banal; era a sedução estúpida de um homem covarde; depois da posse vinha o gualdipério imediato; era a primeira queda no lodo e na lama do vício, o espectro da fome aparecendo, e por fim a rendição completa, o aluguel do seu corpo, a prostituição da sua alma.
O Padre escutava-a em silêncio, ansioso pela obra da graça e do perdão; ouviu-lhe ainda todos os feios pecados, e absolveu-a. Nesse momento a vela se apagou. Quando conseguiu de novo acendê-la, reparou com um vago tremor que a estátua de São José tinha caído, e que a rapariga estava morta...
***
Muitas horas passara no quarto da moribunda; quando chegou à rua reparou que era hora alta da madrugada. Por todos os lados ainda estrugiam gritos alegres de carnaval.
O carro aproximou-se; Bernardim deu um derradeiro olhar à triste casa onde ficara abandonado um cadáver, e entrou com o acolito para a carruagem. Vinham pela rua carros alegres, iluminados a fogos de bengala; era o grupo de mascarados que regressava. Os animais fustigados partiram, e ele pensou:
— Aí voltam os doidos para o cemitério!...
Para trás não tinham ainda ficado dez metros, quando ao aceno de um desconhecido, a caleça parou. Era o marceneiro; e assim disse:
— Muito obrigado, meu Padre, por ter vindo! Coitada, ela morreu!
Foi só; caminhou e desapareceu na sombra. Mas o Padre Bernardim, dando ordem para de novo partir, pensou que havia qualquer coisa de estranho naquele homem tão pobremente vestido de operário; pareceu-lhe que havia uma luz refulgente e tranquila nos seus olhos; e supus um instante que em fim aquele carpinteiro talvez fosse São José...
Rio, 1904.

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Thomaz Pompeu Lopes Ferreira (1879-1913)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A lavadeira Conto), de José Veríssimo



A lavadeira
Era a flor das lavadeiras de ***
Chamava-se Raimunda da Outra-banda.
Outra banda do rio — pois lá nascera.
Conhecia-a assim.
Um dia levantei-me cedo.
Abri a janela do meu quarto e olhei para a terra e para o céu.
O dia estava belíssimo. O céu azul e rosa, a terra alegre. Os passarinhos trinavam nas árvores e o vento agitava de leve as franças das palmeiras.
Respirei ávido os perfumes da floresta que traziam as brisas da manhã.
Por debaixo da minha janela passaram duas mulheres, pareciam mãe e filha.
A mãe não me atraiu a atenção: era uma velha vulgar.
A filha era mais bonita que a manhã.
***
Era de estatura meã, tinha a fronte breve como a de Vênus pagã, cabelos pretos, olhos também negros, gordinha, cara alegre, o nariz pequeno e um tanto achatado na ponta.
Trazia na cabeça um balaio cheio de roupa, o que fazia-a corada.
Tinha atrás da orelha um, pequeno ramalhete de jasmins, isso tornava-a sedutora.
Vestia uma saia amarela com florezinhas azuis sobre a camisa branca como a pena da garça, debruada por uma renda larga que deixava ver-lhe o soberbo colo.
Tirei os olhos dela e olhei para o dia, a manhã era belíssima.
Olhei para a lavadeira, ela era mais bela que a manhã.
Depois ela voltou uma esquina e desapareceu.
As auras trouxeram-me ainda em seu regaço um aroma dos jasmins dos seus cabelos.
Quanto tempo levei a respirar esse aroma, não sei.
Entrando de novo no meu quarto, vi a minha espingarda a um canto.
Maquinalmente vesti-me, tomei os preparos de caça, pus a espingarda ao ombro e saí.
Nunca havia acertado um tiro, essa espingarda era um luxo campestre, um pretexto para gozar dos encantos das florestas.
Parti.
Segui o caminho que levara a lavadeira. Havia nela ainda o perfume dos jasmins dos seus cabelos negros.
Segui-o distraído.
As suçuaranas — a rainha da mata virgem — podia atravessar-se-me no caminho, sem que eu me lembrasse que trazia uma espingarda.
***
Leitor, si algum dia fores a*** e te disserem que existe aí um lago, não crê. É uma mistificação.
Houve, é verdade, em outras eras, um lago aberto, grande, franco e belo, a acariciar com suas pequenas ondas a fina e branca areia das suas margens.
Hoje a aninga, as ninféias, e outras plantas aquáticas, como o mururé e o capim, cobrem totalmente a sua superfície.
Somente aqui e ali se forma uma bacia de que se aproveitam os banhistas e lavadeiras... para lavarem a roupa e o corpo.
Mas, apesar disso, convido-te, leitor, caso fores a*** não deixes de ir visitar o lago ou antes as diversas bacias que ele forma; há aí paisagens de uma perfeição acabada.
Esse caminho levava ao lago.
Segui-o.
Foram primeiro infrutíferas as minhas pesquisas.
Com a cabeça pendida, voltava — sonhando mil sonhos da mocidade — quando um delicioso cheiro de jasmim e uma risada argentina me fizeram, como a um cão de caça, levantar a cabeça e dilatar as narinas.
Procurei por todos os lados. Por entre a folhagem vi como um lençol prateado e nele alguma coisa que se movia.
Aproximei-me e olhei.
***
Ela estava ali.
As águas do lago formavam nesse lugar uma bacia.
O fundo era de areia alva como a pétala do bogarim.
As bordas eram formadas pelas magníficas esmeraldas das folhas do muraré, corada por suas garbosas flores.
Junto à margem, com as águas a lamber-lhe o tronco, espalhando sua sombra nas águas de cristal da bacia, elevava-se airosa uma palmeira miriti.
Em uma das palmas do miriti um carachué cantava.
Mais longe erguia-se uma grande árvore de cujos ramos pendiam os ninhos aboboriformes dos japiins, que saltavam de galho em galho, soltando aos ares os seus alegres cantares.
O japiim é o garoto dos pássaros; o seu canto é irônico, galhofeiro, e, às vezes, insolente.
O sabiá cantava no miriti e um canto semelhante partia do meio dos japiins.
O sabiá exasperava-se, sacudia frenético as asas e arrancava da garganta as suas mais belas notas.
Dir-se-ia que no bando de japiins havia um sabiá, porque um canto idêntico, de notas tão belas, respondia ao cantor pousado na rama do miriti.
E assim continuavam esse mimoso duelo à face da natureza.
***
A roupa havia sido lavada e estendia-se agora sobre a macia relva que bordava a praia.
A lavadeira estava no banho.
Viam-se no chão seus vestidos.
A saia amarela com raminhos azuis devera ter sido solta de uma só vez da cintura e caíra, formando um círculo, aos pés de sua dona. Com ele e por baixo dela caiu também a anágua. A camisa essa estava atirada à beira da praia, bem perto d'água, onde, com medo de molhar-se — a ingrata — teria abandonado aquela cujo corpo cobria.
Sobre a saia repousava — e sentia-se que ali fora posto com todo o amor — o ramo de jasmins.
Do regaço líquido das águas surgiu um corpo trigueiro e esbelto.
O que se via primeiro era uma cabeça emoldurada por uns cabelos negros e lustrosos como as asas da araúna, a espelharem-se úmidos sobre o colo e ombros.
Em seguida o pescoço roliço e belo como da garça, entroncando-se no colo soberbo, moreno e aveludado.
Depois os seios esféricos, túmidos, de uma admirável pureza de linhas, terminando em ponta aguda, desafiando desejos e pedindo beijos.
Dois braços torneados e bem feitos, acabando por umas mãozinhas microscópicas, que cobriam o seio com pudico recato de mulher bonita.
Tudo isto, todas estas belezas, envoltas no manto liquido formado pelas águas, cobertas de pingos d'água onde o sol irradiava fingindo diamantes, fazia-me pensar na igara da lenda indígena e a mim mesmo perguntava si não era eu o mancebo da lenda, a quem a mãe. d'água aparecia com todos os seus encantos para o seduzir.
"Foi na taba dos Manaus.
Um dia um moço tapuio, filho do tuxaua, seguia em uma igara o igarapé que banha a ponta do Tarumã.
Era o mais valente, o mais forte e o mais belo da tribo.
Na ponta de sua flecha pairava certeira a morte.
O seu tacape era o terror da onça e do mundurucu.
E um dia, em uma igara, o moço seguia o igarapé que banha a ponta de Tarumã.
A tarde ia linda, e o sol, mergulhando por detrás da coluna, onde se erguia a floresta, dourava as águas do rio Negro.
E a igara, impelida pelo braço robusto do moço manaus, cortava ligeira, como a seta do seu arco, as águas do riacho.
De noite, alta noite, o moço voltou.
Estava triste e não dormiu.
A mãe dele chorou por ver a tristeza do filho e quis conhecer o motivo de suas mágoas.
O moço falou assim:
— Ouve, mãe, ouve, porque só a ti posso contar a dor que me vai n'alma.
Era uma moça linda... como nunca vi nem entre as filhas dos Manaus, nem dos Mundurucus. Quando a igara vogava, ouvi um canto longínquo mais doce do que o do carachué, mais terno que o arrulho da juriti. Era dela. Estava sentada à margem do rio. Tinha tos cabelos cor de pedra amarela e nele enlaçadas flores do mururé e cantava como jamais ouvi cantar. Depois seus olhos, verdes como a pedra das icamiabas, fitaram-se em mim.
Um momento olhou-me e em seguida estendeu-me os braços, e... o seu corpo esbelto como o açaizeiro, mergulhou nas águas do igarapé, que resvalaram-lhe pelo dorso branco como as penas da garça.
E o moço calou-se.
A velha ouviu, chorou e disse:
— Não voltes, filho, não voltes ao igarapé de Tarumã. Essa virgem é a igara, a mãe d'água. Seu sorriso mata como a flecha do guerreiro e a sua voz é traidora como a pepéua que se oculta nas folhas. Filho, por Tupã, não voltes ao igarapé do Tarumã.
A cabeça do moço inclinou-se sobre o peito e ele ficou mudo.
E no dia seguinte, quando o sol se punha, a igara cortava ligeira as águas do Tarumã.
O moço manaus nela ia e não voltou mais à taba de seus pães.
Não souberam mais dele.
Ousados pescadores contavam à noite, junto ao fogo da oca, que ao passarem de volta de suas pescarias pelo igarapé de Tarumã, quando a noite vai alta, viam ao longe o vulto de uma mulher que cantava, e junto dela o de um guerreiro moço.
E se alguém mais atrevido se aproximava, as águas do rio abriam-se e os vultos desapareciam nelas".
***
Esta poética lenda dos filhos dos Manaus estava-me na memória.
E ao ver banhando-se a linda lavadeira de*** lembrei-me da igara.
***
Apesar de sozinha, a gentil lavadeira não estava sossegada.
Ora seu corpo cortava airoso como o da irerê as águas claras da bacia sobre as quais boiavam seus negros cabelos, quando não repousavam úmidos no dorso lustroso. Ora fazia de uma folha, que a sua mãozinha travessa ia buscar aqui ou ali, uma canoinha, que punha-se a impelir como o sopro da sua boca mimosa até ela ir ao fundo. E quando se dava o naufrágio, como si ele a divertisse muito, seus lábios arrochados abriam-se em um riso alegre e ruidoso, deixando ver duas ordens de dentes pequenos, apontados e alvos como os jasmins que usava em seus cabelos.
E o brinquedo continuava.
***
Brincava e ria sozinha como as aves suas companheiras que cantam na solidão.
Como era bela assim!
E o sabiá cantava e ela escutava-o.
O pássaro notou essa atenção e estimulado soltou uma escala nítida, estridente, argentina, clara.
Depois começou uma ária, melodiosa, sublime, em que a sua voz alcançava todos os tons com uma clareza e perfeição dignas de reparo, sobre os motivos talvez de alguma Lúcia dos bosques.
Às vezes o canto tomava uns acentos clássicos, que recordavam Haendel ou Mozart, outras havia nele uma melodia terna que lembrava Verdi.
Os japiins escolheram o seu melhor cantor para zombar da ave rei das matas. Ele fez fiasco. Não conseguiu arremedá-lo. O chilro do pássaro passava do lírico ao épico, do épico ao bucólico. Ora era pastoril, terno apaixonado. Ora era altivo, arrogante, heroico. Havia algumas notas que pareciam uma risada. Tinham seu que de chacota. Offenbach misturava-se com Rossini.
Os japiins estavam mudos, corridos de vergonha.
E a gentil lavadeira parará de folgar e escutava, com a bela cabeça erguida, o canto do carachué.
***
Eu também escutava-o e olhava-a.
De repente estremeci.
Por detrás da linda lavadeira apareceu, primeiro uma cabeça, e depois um corpo, redondo, negro, luzidio, asqueroso.
Era a sicuriju.
Tinha a boca aberta e desusava branda e cautelosa sobre as folhas verdes do maruré.
E aproximou-se.
Alongou o pescoço, esmagou com a repugnante cabeça uma flor, escancarou as fauces e...
E a horrível cobra ia morder no colo airoso da Raimunda da Outra-banda.
Levantei a espingarda e, rápido, trêmulo, precipitado, atirei.
O réptil estorceu-se, girou sobre si mesmo e caiu com a cabeça esmigalhada sobre o mururé.
A lavadeira deu um grito, correu para a margem, envolveu-se instintivamente nas roupas e fitou os olhos pasmos na serpente, com as mãos amparando o seio ofegante, como se o coração lhe quisesse saltar tora.
Foi esse o primeiro tiro que acertei.
O povo de minha terra crê que ninguém erra tiro em cobra.
***
Voltei à cidade.
Perguntei pela lavadeira.
Disseram-me seu nome e contaram-me quem era.
Era casta e pura como a Mani da lenda indígena.
***
Passaram-se dois anos.
Eu voltei a ***
Uma tarde estava sentado no parapeito do alpendre da linda capelinha do Bom Jesus, edificada em uma risonha colina.
Do sol apenas uns raios vinham bater nas paredes brancas da capela.
Era Ave Maria.
As lavadeiras, com seus balaios na cabeça voltavam do lago e passavam em minha frente no lado oposto da praça.
Lembrei-me então da gentil lavadeira que vira outrora banhando-se nas águas do lago.
Meu amigo A... estava comigo.
Perguntei-lhe pela Raimunda da Outra-banda.
Respondeu-me: Morreu.
Eu estremeci e, com esse acento de quem não quer crer uma verdade dolorosa, tornei-lhe:
— Morreu!?... Como?
— Vive hoje com um região, comerciando nos lagos de Faro.
Disse e calou-se.
***
Alguma coisa oprimiu-me o coração.
Era o toque plangente de Ave Maria no sino da capela.


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José Veríssimo Dias de Matos (1857-1916)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)