domingo, 14 de julho de 2019

São José (Conto), de Tomaz Lopes



São José
(Lenda Cristã)
O velho cura morava na aldeia, e só muito raramente, com mais sacrifício do que esforço, arrastava a sua velhice pachorrenta e a sua discreta virtude até o burburinho da grande cidade tão cheia de fortuna e de miséria, eternamente escabujando no volutabro do vício. Chamava-se Bernardim, e era um homem de altura meã, quase gordo, com um ar sadio de campo, olhos pequeninos e claros, cabelos brancos e faces ainda de punícea cor, onde começava a sulcar o vale das rugas.
A sua casa no campo era o certo abrigo dos pobres, porque nunca lamento ou suplica, sono, tristeza ou fome tinham ficado esquecidos à soleira como cães sem dono e sem destino. A amigo ou estranho, era sempre de bom rosto que o velho dava pouso. Era uma singela casa no meio de um tosco jardim onde chorava a murmura e sonora queixa de um regato; e esse regato era de certo a única lamentação que repetidamente passava à sua porta. Na primavera as flores perfumavam toda a casa; brancas santas e alvos santos de gesso e de mármore surgiam do oratório durante os três meses da suave estação, como flores nascendo de flores; no inverno, quando o céu era gris e os caminhos eram brancos, à boca do seu calorífero vinham os pobres aquecer-se do rude frio.
O doce Bernardim, homem simples e bom, sem a enredada sabedoria dos magnos sacerdotes, sem largos voos de imaginação, pouco se aprofundara em dogmas e conceitos; cumpria fielmente as leis de Jesus com a mesma facilidade inocente com que um fruto sai de uma flor. Assim, não maldizia porque de ninguém se queixava; era esmoler porque se condoía de quem era pobre e tinha fome; não mentia por ignorar que outra coisa além dos beijos e da verdade pudesse pousar em humana boca, — nem mesmo as abelhas que esvoaçavam em torno dos lábios de Platão; não praguejava porque de nada serve a blasfêmia; não odiava porque todos o amavam; era casto porque tinha bons pensamentos. Lera pouco durante a longa existência; sabia que no princípio Deus criou o céu e a terra, depois separou a luz e a treva... Não conhecia histórias de raças e de conquistas, nem crônicas de guerras religiosas, nem falsidades e manhas de inimigos. A Inquisição com todos os suplícios e todas as vítimas era uma espécie de lenda para amedrontar os ateus, assim como o papão era uma fantasia para intimidar as crianças; o Papa era um padre muito santo e muito sábio que morava em Roma; Roma era uma cidade vizinha de sua França. Com o latim do Seminário dizia missa, fazia citações ao amigo farmacêutico, pregava às vezes no púlpito e ensinava declinações e conjugações: ancila, ancilae; fero, fers, tuli, latum, ferre...
Gostava de passar bem porque dizia que não era santo; e quando sentado à mesa, com a porta aberta para quem tivesse fome e quisesse entrar, tendo dado esmola e distribuído pães (mais pão do que conselhos), orava e acalmava o estômago com o pão que é o corpo, com o vinho que é o sangue de Jesus, muitas vezes pensava: — Coitadinho de São João que comia gafanhotos!...
Era tranquilo e meigo; qualquer sofrimento lhe causava pena, para toda estúrdia encontrava uma desculpa, e para os crimes tinha sempre um perdão.
Certa vez, numa tormentosa noite de inverno, quando lá fora caía o gelo e rugia a fúria do sudoeste digladiando as árvores nuas, ele deitado, acomodado começava a dormir; de repente escancarou-se a porta e entrou pelo seu quarto um homem todo coberto de Sangue e de medo.
— Meu Padre!
— Que é, filho?
E o assassino tremendo como se já estivesse diante da máquina sinistra e fatal da guilhotina:
— Matei meu irmão!
O Padre Bernardim olhou-o, mal compreendendo as suas palavras loucas.
— Teu irmão?
— Sim, meu irmão!
Com uma infinita calma e uma suave ternura, o velho sacerdote acrescentou:
 — Que horrível crime, meu filho! Deus te perdoe!
Persignou-se, — e como tinha sono continuou a dormir.
Toda a aldeia o estimava; havia moças que batizara e casara; quando saía, já.se apoiando a um trêmulo bordão, as mulheres vinham dos casais à porta, à espera de sua benção, e ele passava sem se apressar e sem se admirar, como se estivesse em casa ou como se a aldeia fosse a continuação de sua casa. E quantas vezes, quando havia lua no céu, as crianças se reuniam à sua porta, e o Padre, ingênuo e bom começava com sua voz repousada e tranquila:
— Era uma vez uma camponesa que se chamava Joana...
***
Foi nos primeiros dias de fevereiro que uma vez, por uma tarde fria, quase à hora da noite, um homem pobremente vestido de calça e blusa, com uma espécie de gorro de operário, entrou em casa do Padre Bernardim. A classe terminara. Bernardim estava só no seu quarto, quando duas pancadas discretas ressoaram à porta. Tão habituado estava o Padre a todas as visitas, que nem de leve se admirou, e calmamente disse:
— Entre!
O homem tão modestamente vestido de marceneiro penetrou rio seu quarto.
— Meu Padre, eu sei que vai amanhã à cidade, e lhe venho pedir um favor.
Tanta doçura havia nas palavras do desconhecido, tanta certeza, tão amável e boa era a sua fisionomia, que o velho sacerdote teve a esquisita vontade de lhe beijar as mãos.
— Mas como soube que eu vou amanhã à cidade?
O carpinteiro tirou o gorro passou a mão pelos cabelos e pela barba castanha, e falou com uma voz persuasiva:
— Não lhe posso dizer ao certo como tive notícia de sua visita amanhã a Paris; mas o que é verdade é que há mais de quinze dias eu ando à sua busca para lhe pedir a graça a que vim. Sempre, infelizmente tem havido desencontro entre nós; aqui estou porém; e mesmo que o Padre quisesse adiar a viagem, é tão caridoso o que lhe vou pedir, que certamente acederá à obra de tanta misericórdia e caridade!
— Fale, irmão!
— Depois de amanhã é o Carnaval; é a loucura da embriaguez e da orgia. Num dos centros mais populosos e vergonhosos da cidade mora uma pobre pecadora que há seis meses definha, vencida pelo mal terrível da tuberculose. A casa em que habita é muito mais que suspeita; desde janeiro até São Silvestre estrebucha entre as quatro paredes uma horrenda bacanal; é lá a reunião dos vadios, dos alcaiotes, dos companheiros do vício, dos sodalícios da orgia. É a vilança da inteligência e do caráter, a pândega pulha e ignóbil de bordel e de taverna! A criatura de que falo muito me interessa; parece-me que no mato, descobri um remédio que si não é cura, é ao menos um alívio ao doloroso mal dos pulmões. Mas me diga, irmão: eu, um pobre carpinteiro posso entrar assim de blusa, sem chamar a atenção numa casa de tanto pecado e. tanto luxo? O meu amigo é um sacerdote; e para que não desperte suspeita, quando levar o remédio ouvi-la-á em confissão, pois a criatura, enfermiça há muito, anda agora a morrer. Bastará que chegue à sua casa às dez horas da noite, quando os rapazes e as mulheres saírem em algazarra para o ruído do Carnaval. O seu quarto é no segundo andar, num corredor, terceira porta à esquerda. Vá, meu irmão, e fique certo de que faz uma grande obra de caridade. Vá, ela o espera!
E o marceneiro deu a rua e o número da casa.
Com tanta firmeza ele falara que o Padre não pensou em por a menor objeção; apenas com um sorriso que a tristeza severizara indagou:
— E o remédio que lhe devo dar, onde o encontro?
Quedou-se alguns instantes pensativo com o sobrecenho carregado o desconhecido; parecia que uma grande magna lhe lancinava a alma; por fim, murmurou:
— Irmão, ela já está desenganada pelo médico!
— Sim, mas o seu remédio descoberto no mato?
O carpinteiro meneou a cabeça negativamente.
— É inútil levar-lhe remédio! Vejo que é tarde! Leve-lhe a extrema unção!
Bernardim curioso ainda perguntou se ele a vira ultimamente.
— Não, eu nunca a vi!
Até hora alta da noite os dois homens conversaram; um do outro se agradara na simplicidade que os fazia parecidos; e era tão simpática a convivência dos seus espíritos que nem um reparou na madrugada que vinha nascendo no céu...
***
Paris estava no deslumbramento da festa louca. Explodiam por toda a parte orquestras de assovios, faiscavam iluminações, retumbavam clamores de orgia. Já passavam os grupos para os bailes numa ruidosa algazarra a que se sentia o vinho. Era o domínio do rega-bofe e da troça, da pândega desconjuntada, da pilhéria, da chalaça, da chacota, da laracha, do insulto mascarado a que se chama geralmente espírito... Passavam pierrots, arlequins, clowns, dominós; todo mundo tinha uma fisionomia mais ou menos mascarada; tilintavam guizos, sacudiam-se canções lascivas de bordel. Era o Carnaval. Era a intriga elegante para a gente fina, era a pilhéria boçal para os rudes; eram os vinhos Champagne para os ricos e clubmans, era a aguardente para os pobres e galhardos. Para muitos era a verdade. Vinham os grupos e os carros de todas as ruas e penetravam ruidosos nos boulevards festivos. A grande, a gloriosa, a imortal cidade parecia toda entregue à momice e à graçola do entrudo. Onde estava o grande cérebro de Paris produzido por centenas de edições, em milhares de brochuras, a seiva fecunda do seu grande espírito pelas artes e pelas ciências? Onde os cursos em que se aprendem todos os conhecimentos do saber humano, em que se preveem todas as hipóteses, em que se investigam todas as causas, e se determinam todos os efeitos? Paris descansava; o Carnaval se estendia sobre a opulenta cidade como um grande polvo que abre tentáculos...
Caía a neve; choviam policromias de confetti; e pairava no ar um cheiro de harém, e subia no espaço um perfume de absinto...
Às dez horas da noite, de uma casa da rua des Petits Correaux saiu um grupo alegre de mascarados e mascaradas; carruagens se aproximaram; houve uma grulhada de vozes, uns risos e uns gritinhos nervosos, um ar de cochicho e segredo que há sempre entre máscaras para que toda gente saiba que eles se conhecem entre si; depois um ajuntamento de curiosos, e os carros partiram. Aquele trecho da rua ficou por instante silencioso; nesse momento, um carro modesto parou; desceu o Padre Bernardim acompanhado pelo acólito, e os dois entraram na casa de onde haviam partido os mascarados. Defronte, um homem de blusa de operário e que parecia um marceneiro, rondava.
***
O velho Bernardim sentiu-se contrafeito ao penetrar naquele corredor, ao subir aquela escada onde pairava um ar de mistério e de orgia, onde havia pouco roncavam deboches e bebedeiras, onde passaram homens sem fé e mulheres seminuas, e onde entrava agora com Jesus Cristo, para dar a extrema-unção a uma moribunda. Mas lembrava-se das palavras do seu visitante: "Ela o espera!" Ela o esperava; mas onde? Todas as salas estavam vazias; por toda parte, em vez de remédios, jaziam garrafas esgotadas de vinhos Seus pudicos olhos surpreendiam interiores desonestos de alcovas lascivas... O acólito lembrou que era no segundo andar, terceira porta à esquerda. Subiram uma nova escada, chegaram ao corredor; mas pairava o mesmo silêncio, descansava o mesmo abandono. O velho padre estava receoso; temia que entrasse alguém e o visse conduzindo o Salvador aquela casa de pecado e de vício. E se voltassem de repente aquelas mulheres e aqueles homens? Decerto o desrespeitariam, tontos pela loucura da bebida e do Carnaval. Foi com uma vaga esperança de fugir àquela casa sem fé e sem Deus, que ele disse ao companheiro:
— Parece que nos enganamos! Não há ninguém na casa!...
Mas este não respondeu: com a mão em concha sobre a orelha, parecia ouvir atentamente.
— Que é que fazes?
— Não está ouvindo um rumor que parece um gemido?
Efetivamente aos ouvidos do Padre chegavam agora uns dolorosos e abafados ais. Encaminharam-se mais para porta, e bateram de leve; ninguém respondeu; outra vez, com os nós dos dedos, Bernardim de mansinho fê-la ressoar; também não houve resposta, mas aos dois amigos pareceu que o sussurro cessara. Por fim o rapaz entreabriu a porta, e o Padre entrou sozinho.
***
Longo tempo durou a confissão.
Quando o Padre abeirou-se do leito da enferma, quando ela o viu, não mostrou o menor espanto nem o mais ligeiro sobressalto; apenas nos seus grandes olhos muito fundos e sofredores, fulgiu rápida e fugace uma centelha de alegria. O velho sacerdote olhou em volta de si. O quarto era pequeno, mas conservava um luxo atrevido e convencional de veludos e de cetins; o leito largo, fofo, sensual, era encimado por um baldaquino de seda vermelha como sangue; e à cabeceira, pregado à parede, um grande espelho refletia o quadro triste de uma doente quase na agonia. O Padre que vencera facilmente a vergonha de entrar naquela casa suspeita, escrupulizou diante daquele cristal de serralho, luzente e obsceno, e desviou os castos olhos. Perto da porta um divã ostentava a sua cor vermelha também; havia espalhadas duas ou três cadeiras largas; o lavatório estava cheio, transbordando de frascos secos de essências e caixas vazias de pó de arroz ao lado um átrio onde descansavam os três volumes do Chevalier de Faublas e uns números velhos de Sans-Gene, L'Indiscret, Culotte Rouge, La Dame aux Camélias", e uma história de Napoleão I; perto da cama estava a mesinha; havia frascos de remédio, — e uma vela iluminava uma pequena e tosca imagem de São José Bernardim, com uma voz tranquila deu as boas noites à rapariga, e indagou solícito:
— Sente-se melhor? Gemia tão baixinho que mal pude ouvi-la!
Ela fez um esforço cansado e murmurou com tristeza:
— Tinha medo de incomodar os que se divertiam! Já ontem quiseram mandar-me para o hospital! Diziam que eu ia estragar-lhes o entrado... Não me queriam dar um confessor! Mas eu. sempre tive a esperança de não morrer com tanta culpa!
E olhou com um ar devoto para a imagem de São José...
— Pois aqui estou, minha filha, para ouvi-la e perdoá-la!
A pobre criatura ficou com os olhos rasos de lagrimas felizes; e com a voz trêmula indagou curiosa:
— Diga-me, meu Padre, conhece-me? Como soube que estava doente?
— Um homem que foi à minha casa e me falou do seu estado... Não o conheço; creio que é um carpinteiro.
— Talvez queira fazer o meu caixão...
— Talvez queira salvá-la, minha filha!
Ela contou-lhe a sua história. Era a mesma de sempre, dolorosa e banal; era a sedução estúpida de um homem covarde; depois da posse vinha o gualdipério imediato; era a primeira queda no lodo e na lama do vício, o espectro da fome aparecendo, e por fim a rendição completa, o aluguel do seu corpo, a prostituição da sua alma.
O Padre escutava-a em silêncio, ansioso pela obra da graça e do perdão; ouviu-lhe ainda todos os feios pecados, e absolveu-a. Nesse momento a vela se apagou. Quando conseguiu de novo acendê-la, reparou com um vago tremor que a estátua de São José tinha caído, e que a rapariga estava morta...
***
Muitas horas passara no quarto da moribunda; quando chegou à rua reparou que era hora alta da madrugada. Por todos os lados ainda estrugiam gritos alegres de carnaval.
O carro aproximou-se; Bernardim deu um derradeiro olhar à triste casa onde ficara abandonado um cadáver, e entrou com o acolito para a carruagem. Vinham pela rua carros alegres, iluminados a fogos de bengala; era o grupo de mascarados que regressava. Os animais fustigados partiram, e ele pensou:
— Aí voltam os doidos para o cemitério!...
Para trás não tinham ainda ficado dez metros, quando ao aceno de um desconhecido, a caleça parou. Era o marceneiro; e assim disse:
— Muito obrigado, meu Padre, por ter vindo! Coitada, ela morreu!
Foi só; caminhou e desapareceu na sombra. Mas o Padre Bernardim, dando ordem para de novo partir, pensou que havia qualquer coisa de estranho naquele homem tão pobremente vestido de operário; pareceu-lhe que havia uma luz refulgente e tranquila nos seus olhos; e supus um instante que em fim aquele carpinteiro talvez fosse São José...
Rio, 1904.

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Thomaz Pompeu Lopes Ferreira (1879-1913)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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