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7/23/2019

A "questão" Shakespeare (Ensaio)



A "questão" Shakespeare

O que mais me impressiona na "questão" Shakespeare é que se tenha tido a ideia de inventá-la.

Sim, confesso, isso me aborrece.

O leitor dirá que não tenho razão, e que meu descontentamento indica um espírito pouco objetivo. Dir-se-ia ainda que no dia em que a erudição tiver demonstrado que o autor das peças atribuídas a Shakespeare não é o personagem até então chamado Shakespeare, mas um outro senhor, serei obrigado a acreditar.

Sim. Inclinar-me-ei diante desse fato brutal, mas com uma perfeita indiferença. O que me interessa aqui, e com toda certeza há de sempre me interessar, é a obra e não o homem, são as peças (que eu as admiro no palco ou simplesmente lendo-as), os dramas e não a identidade mundana de seu autor. Percebe-se o alcance desta distinção. Respeito o autor, pois tenho-o por um dos gênios mais completos e harmoniosos da humanidade, tendo sido a fonte de onde nasceu o rio imenso de tragédias, dramas, "feerias” , esse jorro infinito de lirismo. Mas ao estado civil desse autor, seu traje humano, se assim posso dizer, às aparências corporais em que o destino encerrou esta alma prodigiosa, não presto nenhuma atenção, não dou nenhuma importância. Os eruditos, que, com uma paciência pasmosa, estão, desde muitos anos, a chicanar sobre os textos para estabelecer que Shakespeare não era Shakespeare, parecem-me desprovidos, num grão elevado, de senso literário. Evidentemente esse trabalho lhes é um divertimento, faz-lhes passar o tempo, esse tempo que têm de sobra, não tendo mais que fazer senão classificar fichas. Mas nós, o público, o que nos importa no fundo?

E, em primeiro lugar, nada há de menos provado de que essa não-identidade de Shakespeare. Eu bem sei; existe uma cópia formidável de argumentos. O seu conjunto, porém, impressiona sem convencer. Há algo de intencional em tudo isso, uma espécie de intimação. Querem nos envergonhar da nossa opinião, da nossa boa velha opinião, cândida e tradicional, como se fosse completamente idiota o fato de pensar que um simples ator pudesse ter um tamanho gênio poético.

Entretanto, não se chega a um acordo sobre a individualidade que convém substituir ao ilustre cômico. A tese Stanley, hábil e minuciosamente defendida, permanece plausível e nada mais. A tese Bacon, extraordinária de complicação como um romance-folhetim, conclui de modo tão absurdo que nos põem estupefatos.

Não é por preguiça de espírito que me inclino para a hipótese tradicional. Eu a rejeitaria de boa vontade se a reconhecesse falsa. Todavia, até hoje, é pelo menos tão provável quanto as outras.

Julgo que se proporciona grande prejuízo a Shakespeare ator, contestando-lhe a paternidade das suas peças, sob pretexto de que, socialmente, não era digno delas. O gênio sopra onde quer. Por que não teria visitado aquela cabeça?

É um mistério profundo nascer-se gênio, mistério análogo ao do primeiro frêmito da vida. Em Stanley ou em Bacon, ele é tão admirável, tão incompreensível como em Shakespeare; nem mais nem menos. Que papel representam no caso as considerações acerca da fortuna, da posição, das viagens diplomáticas? Tudo isso não passa de infantilidades. O gênio tudo adivinha, sem precisar ver coisa alguma.

Não temos ainda, quase sob os olhos, o exemplo empolgante de Balzac, a quem um trabalho esmagador e uma vida irrequieta não permitiam frequentar a décima parte dos personagens que criou, com tão flagrante realidade? Os homens de simples talento sim, são obrigados a verificar por eles mesmos aquilo que vão descrever... sob pena de fazerem obra incolor, incerta, artificial. Quanto aos homens de gênio, é nisso precisamente que reside a sua força. Sabem tudo desde o berço, e o mais furtivo relance lhes basta para abranger um fato em conjunto ou compreender um ser até as profundezas.

O erro fundamental dos exegetas da questão Shakespeare, consiste em tratar um gênio com os métodos ordinários com que se explica as manifestações dos simples talentos.

Não pretendo estar seguro de ter sido Shakespeare o autor do Teatro da Rosa, mas afirmo que ainda não se provou que o não tenha sido. E persisto em acreditar possui maiores probabilidades de conservar o nome ao mesmo tempo que a glória, porque o gênio escolhe mais raramente os palácios de que as choupanas para morada. Sabe-se o que era Francisco Bacon? um triste indivíduo, apesar (ou talvez por causa) do enigma real da sua origem, um triste indivíduo e um filósofo cuja fria doutrina está nos antípodas da concepção radiosa do mundo que nos revelam as peças de Shakespeare. Quanto a Stanley, é presumível que fosse um fidalgo encantador, culto, requintado – um europeu, se quiserem, um perfeito humanista. No entanto, entre tudo isso e o gênio há um abismo, que nada nos autoriza a considerar desapercebido. E, como no caso, tudo é probabilidade, que me seja permitido sugerir a minha. Sabe-se que, ao ponto de vista do lirismo e da psicologia, os viajantes extraem pouca coisa de sua experiência, por mais vasta que seja. Stanley não passou de um amador, e justamente por isso está condenado como criador."

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FRANCIS DE MIOMANDRE
Revista "America Brasileira", 23, novembro de 1923.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

5/31/2017

William Shakespeare: “As Alegres Senhoras de Windsor"


William Shakespeare: “As Alegres Senhoras de Windsor"
Como toda comédia de Shakespeare, “As alegres senhoras de Windsor” é o enquadramento perfeito da máxima latina “Ridendo castigat mores”: instrui ao mesmo tempo em que diverte... A sagacidade das senhoras Ford e Page, aliada à fútil ostentação de Sir John Falstaff é de fazer “rir até cuspir o fígado”:
FALSTAFF — Deixa de trocadilhos, Pistola! É verdade que tenho uma cintura de duas jardas; mas neste momento não importa meu cinto, mas o que sinto. Em resumo, rapazes, tenho em mente fazer a corte à mulher do Ford. Estou certo de que hei de divertir-me bastante: conversa bem, é afável, sabe convidar a gente com o rabo do olho. Interpreto perfeitamente o seu estilo familiar. Mas o mais renitente trecho de sua conduta poderá ser traduzido da seguinte maneira: “Chamo-me sir John Falstaff! / FALSTAFF — Tenho aqui comigo uma carta escrevi para mandar-lhe, e uma outra para mulher de Page, que, faz pouco tempo, me lançou olhares animadores e examinou o meu físico com miradas judiciosas, ora dourando-me os pés com raios dos olhos, ora o ventre avantajado. / FALSTAFF — Percorreu minhas formas exteriores com tão ávida curiosidade, que o apetite de seus olhos parecia queimar-me como um espelho ustório. Esta carta aqui é para lhe ser entregue. É ela, também, quem dirige a bolsa do casal; é um trecho da Guiana, rica em ouro e liberalidades. Passarei a ser o coletor de ambas, e elas o meu tesouro, as minhas Índias orientais e ocidentais, comerciando eu pelos dois lados. Leva esta carta para a senhora Page, e tu, esta outra para a senhora Ford. Vamos ficar ricos, rapazes! Vamos ficar ricos!
SENHORA FORD — Como! Das cartas amorosas escapei no bom tempo de minha beleza, para tornar-me agora assunto delas? Vejamos: “Não me pergunteis o motivo de vos amar, porque embora o amor empregue a razão como seu médico, não a admite como conselheira. Já não sois jovem, como eu também não o sou; tendes gênio alegre, tal como eu, ah! ah! Para que maior simpatia? Gostais de xerez tanto quanto eu. Poderíeis desejar maior afinidade? Em resumo, senhora Page, basta saberes — se o amor de um soldado te for suficiente — que te amo. Não direi que te apiades de mim, por não ser soldadesca semelhante frase. Direi apenas: ama-me! Do teu cavaleiro que ao claro luzeiro do sol ou candeeiro por ti, prazenteiro, saudara o coveiro, lutando primeiro com o mundo inteiro. John Falstaff.” Que Herodes da Judeia será este? Oh mundo perverso! perverso! Um sujeito quase de todo roído pela idade, e que se comporta como um moço conquistador! em nome do diabo, que gesto refletido de minha parte poderá ter surpreendido esse bêbedo flamengo em minhas conversações, para ousar assaltar-me por esse modo? Como! Não chegou a conversar comigo nem três vezes! Que lhe poderia ter eu falado? De todas essas vezes fui muito frugal com relação à minha alegria — o céu que me perdoe! — Ora essa! Vou apresentar no parlamento uma lei para supressão de todos os homens. De que modo poderei vingada hei de ser, tão certo como serem feitas de pudim as minhas vísceras.
SENHORA PAGE — Carta por carta, com a diferença de que onde uma traz o nome “Ford” a outra mostra o nome “Page”. Para tranquilizar-te a respeito do mistério de tua má reputação, aqui tens a irmã gêmea de tua carta. Mas que fique a herança para a tua, porque posso assegurar-te que a minha jamais a reclamará. Aposto como ele tem um milheiro dessas cartas, com o lugar para o nome. E mais: que estas já estão em segunda edição. Sem dúvida alguma, vai publicá-las, porque para ele pouco importa o texto, contanto que o nosso nome esteja no meio. Eu preferia ver-me transformada em um dos gigantes e ficar debaixo do monte Pélion. Pelo que vejo, é mais fácil encontrar vinte rolinhas lascivas do que um homem casto.
Temas comuns em Shakespeare norteia toda à peça, como o ciúme, algo muito bem realçado em Ford, o gentil-homem de Windsor, que chega a se disfarçar com o intuito de trazer á tona a suposta perfídia de sua esposa e a canalhice de Falstaff:
FORD — Muito embora Page seja um imbecil pachorrento e confie demais na fragilidade de sua mulher, não porei de lado minhas desconfianças assim com facilidade. Ela esteve com Falstaff em casa de Page, não sabendo eu o que fizeram por lá. Muito bem; vou estudar o caso mais de perto. Tenho um disfarce para sondá-lo. Se eu verificar que ela é honesta, não darei por perdido o trabalho. Caso contrário, foi muito bem empregado. / FORD — Que epicúrico amaldiçoado é este miserável! Sinto o coração partir-se-me de impaciência. E ainda haverá quem me venha dizer que o meu ciúme é intempestivo? Minha mulher lhe mandou recado; a hora está marcada; é negócio feito. Alguém poderia pensar em semelhante coisa? Vede que inferno é possuir uma mulher falsa. Vou ficar com o leito poluído, os cofres saqueados, a reputação estraçalhada. E não somente terei de suportar todos esses ultrajes, como ainda serei forçado a ouvir os mais abomináveis qualificativos, da boca, justamente, de quem me lança todo esse opróbrio. Que qualificativos? Que nomes? Arnaimom soa bem; Lúcifer, bem; Barbason, bem. No entanto são qualificativos do diabo, nomes do demônio. Mas cornudo, cabrão, chifrudo! Nem o próprio diabo tem esses nomes. Page é um asno, um asno sossegado; confia na mulher, não sente ciúmes. Eu preferira entregar toda minha manteiga a um holandês, meu queijo ao pastor Hugo, o galense, minha garrafa de aguardente a qualquer irlandês, ou o meu cavalo castrado a um ladrão, para dar um passeio nele, a deixar minha mulher com ela própria. Ela enreda, rumina e trama; o que as mulheres resolvem no coração tem de ser levado a cabo; ainda que se lhes parta o coração, têm de ir até ao fim. Louvado seja Deus por causa do meu ciúme. Onze horas é a hora combinada. Vou impedir isso, surpreender em flagrante minha mulher, vingar-me de Falstaff e zombar de Page. Não perderei tempo. Melhor chegar três horas mais cedo do que atrasado de um minuto. Sim, senhor! Sim, senhor! Cabrão! Cabrão! Cabrão!
A senhora Quickly, que diz detestar mexericos, é a típica expressão de uma astuta alcoviteira. Aliás, outro tema comum, não apenas em Shakespeare, como na dramaturgia universal ao longo de sua história. Vemos isso de modo destacado em Gil Vicente, na pessoa de Brísida Vaz, na peça “Auto da Barca do Inferno”. Quickly, como uma boa agenciadora de casamentos, sempre sabe satisfazer seus “clientes”:
QUICKLY — Está bem. Mas ainda tenho outro recado para Vossa Senhoria: a senhora Page também se recomenda de coração a Vossa Senhoria. E permiti que vos diga ao ouvido: ela é fartuosa como o pode ser uma mulher civil e honesta, uma mulher, posso asseverar-vos, que nem de manhã nem de tarde deixa de dizer as suas orações, tão bem como qualquer mulher de Windsor, seja ela quem for. Pediu-me que dissesse a Vossa Senhoria que o marido dela raramente para fora de casa, mas que ela espera que não há de faltar ocasião. Nunca vi uma mulher tão obcecada por alguém. Só parece que tendes feitiço, não? É pura verdade. / QUICKLY — Oh, senhor! Ela lamenta o que aconteceu; se a vísseis, ficaríeis comovido. O marido dela vai caçar passarinhos esta manhã. Ela pede que a vades ver hoje, entre as oito e as nove. Terei de levar-lhe a resposta com a maior urgência possível. Ela vos apresentará desculpas, posso asseverar-vos.
Shakespeare não é apenas recomendado como leitura, mas asseverado como obrigatório, pelo menos para quem deseja algo mais do que o simples entretenimento.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2013.

5/25/2017

Ainda o caso Shakespeare


Ainda o caso Shakespeare
Texto escrito em 1924. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica é de Iba Mendes (2017)


Longworsh Chambrun escreveu em "La Revue Universele" um artigo referente à existência de Shakespeare, de que fizemos este resumo. A primeira alusão formal a Shakespeare, com o escritor, encontra-se em "Wilobiehis Avisa", livro sem valor literário, aparecido pelos fins de 1594 com o pseudônimo de Hadrian Doréle. O autor menciona Shakespeare como tendo feito aparecer o volume de "Lucrécia". A censura ordenou a supressão da obra, sob o pretexto de que as personagens eram facilmente reconhecíveis sob as suas iniciais... Quando Shakespeare morreu em Stratford, em abril de 1616, muitos dos seus contemporâneos celebraram-lhe a glória com versos elegíacos, cuja mor parte foi inserta na edição das suas obras publicadas pelos seus camaradas do teatro, em 1623. Além destas peças semioficiais, há outras mais modestas, como os versos ingênuos compostos em 1626 sobre "a morte do poeta do Avon". Ben Jonson escreveu a ode ao "doce cisne do Avon". Os biógrafos, mesmo os mais antigos, divergem quanto à condição da família de Shakespeare. Rowe, na sua notícia biográfica, declara que a família do poeta era de bom tom e fazia boa figura no condado ("people of good figure and foshion"), ao passo que Aubrey, historiógrafo consciencioso, invocou o testemunho de um velho vizinho de Henley Street que conheceu os Shakespeare no momento dos embaraços financeiros. Este contou que o pai tinha sido açougueiro e que Wiliam, por certo tempo, foi aprendiz nesta profissão. Rowe alude à condição de nobreza da família (gentis-homens de pequena nobreza) e fala da sua condição social numa época em que o poeta, tendo abandonado a cena, voltou para os seus cobertos de ouro e de louros. As informações de Aubrey remontam a vinte anos antes: por conseguinte não há contradição entre ambos os trechos.

A questão Shakespeare


A questão Shakespeare

Texto escrito em 1923. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


"O que mais me impressiona na "questão" Shakespeare é que se tenha tido a ideia de inventá-la.”
Sim, confesso, isso me aborrece.
O leitor dirá que não tenho razão, e que meu descontentamento indica um espírito pouco objetivo. Dir-se-ia ainda que no dia em que a erudição tiver demonstrado que o autor das peças atribuídas a Shakespeare não é o personagem até então chamado Shakespeare, mas um outro senhor, serei obrigado a acreditar.
Sim. Inclinar-me-ei diante desse fato brutal, mas com uma perfeita indiferença. O que me interessa aqui, e com toda certeza há de sempre me interessar, é a obra e não o homem, são as peças (que eu as admiro no palco ou simplesmente lendo-as), os dramas e não a identidade mundana de seu autor. Percebe-se alcance desta distinção. Respeito o autor, pois tenho-o por um dos gênios mais completos e harmoniosos da humanidade, tendo sido a fonte donde nasceu o rio imenso de tragédias, dramas, "feerias”, esse jorro infinito de lirismo. Mas ao estado civil desse autor, seu traje humano, se assim posso dizer, às aparências corporais em que o Destino encerrou esta alma prodigiosa, não presto nenhuma atenção, não dou nenhuma importância. Os eruditos, que, com uma paciência pasmosa, estão, desde muitos anos, a chicanar sobre os textos para estabelecer que Shakespeare não era Shakespeare, parecem-me desprovidos, num grão elevado, de senso literário. Evidentemente esse trabalho lhes é um divertimento, faz-lhes passar o tempo, esse tempo que têm de sobra, não tendo mais que fazer senão classificar fichas. Mas nós, o público, o que nos importa no fundo?
E, em primeiro lugar, nada há de menos provado de que essa não-identidade de Shakespeare. Eu bem sei; existe uma cópia formidável de argumentos. O seu conjunto, porém, impressiona sem convencer. Há algo de intencional em tudo isso, uma espécie de intimação. Querem nos envergonhar da nossa opinião, da nossa boa velha opinião, cândida e tradicional, como se fosse completamente idiota o fato de pensar que um simples ator pudesse ter um tamanho gênio poético.
Entretanto, não se chega a um acordo sobre a individualidade que convém substituir ao ilustre cômico. A tese Stanley, hábil e minuciosamente defendida, permanece plausível e nada mais. A tese Bacon, extraordinária de complicação como um romance-folhetim, conclui de modo tão absurdo que nos põe estupefatos.
Não é por preguiça de espírito que me inclino para a hipótese tradicional. Eu a rejeitaria de boa vontade se a reconhecesse falsa. Todavia, até hoje, é pelo menos tão provável quanto as outras.
Julgo que se proporciona grande prejuízo a Shakespeare ator, contestando-lhe a paternidade das suas peças, sob pretexto de que, socialmente, não era digno delas. O gênio sopra onde quer. Por que não teria visitado aquela cabeça?
É um mistério profundo nascer-se gênio, mistério análogo ao do primeiro frêmito da vida. Em Stanley ou em Bacon, ele é tão admirável, tão incompreensível como em Shakespeare; nem mais nem menos. Que papel representam no caso as considerações acerca da fortuna, da posição, das viagens diplomáticas? Tudo isso não passa de infantilidades. O gênio tudo adivinha, sem precisar ver coisa alguma.
Não temos ainda, quase sob os olhos, o exemplo empolgante de Balzac, a quem um trabalho esmagador e uma vida irrequieta não permitiam frequentar a décima parte dos personagens que criou, com tão flagrante realidade? Os homens de simples talento sim, são obrigados a verificar por eles mesmos aquilo que vão descrever... sob pena de fazerem obra incolor, incerta, artificial. Quanto aos homens de gênio, é nisso precisamente que reside a sua força. Sabem tudo desde o berço, e o mais furtivo relance lhes basta para abranger um fato em conjunto ou compreender um ser até as profundezas.
O erro fundamental dos exegetas da questão Shakespeare, consiste em tratar um gênio com os métodos ordinários com que se explica as manifestações dos simples talentos.
Não pretendo estar seguro de ter sido Shakespeare o autor do Teatro da Rosa, mas afirmo que ainda não se provou que o não tenha sido. E persisto em acreditar possui maiores probabilidades de conservar o nome ao mesmo tempo que a glória, porque o gênio escolhe mais raramente os palácios de que as choupanas para morada. Sabe-se o que era Francisco Bacon? um triste indivíduo, apesar (ou talvez por causa) do enigma real da sua origem, um triste indivíduo e um filósofo cuja fria doutrina está nos antípodos da concepção radiosa do mundo que nos revelam as peças de Shakespeare. Quanto a Stanley, é presumível que fosse um fidalgo encantador, culto, requintado – um europeu, se quiserem, um perfeito humanista. No entanto, entre tudo isso e o gênio há um abismo, que nada nos autoriza a considerar desapercebido. E, como no caso, tudo é probabilidade, que me seja permitido sugerir a minha. Sabe-se que, ao ponto de vista do lirismo e da psicologia, os viajantes extraem pouca coisa de sua experiência, por mais vasta que seja. Stanley não passou de um amador, e justamente por isso está condenado como criador.