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2/26/2017

Luiz Felipe Pondé, grosso modo...



Luiz Felipe Pondé, grosso modo...

Dentre os muitos "formadores de opinião" que ganharam destaque com o advento da Internet, especialmente das chamadas "redes sociais", Luiz Felipe Pondé parece desvirtuar-se daquele tipo caricato, tipicamente de Esquerda e que se reproduz em série nas grandes universidades. 

No que se diz respeito aos grandes temas que norteiam a sociedade brasileira, tem demonstrado em seus escritos e em suas entrevistas uma certa independência que lhe tem rendido o rótulo de "filósofo da Direita", notadamente por suas posições, digamos, "mais conservadoras". Conforme ele mesmo escreveu em "Contra um Mundo Melhor": "Em matéria de sentido, prefiro os antigos: Deus, a fidelidade, a castidade, a culpa, a disciplina, a família, o medo, Shakespeare, a Bíblia, a Ilíada. Rejeito todos os novos sentidos: a democracia como religião moderna, a revolução sexual, que não passa de puro marketing de comportamento (continuamos a mentir sobre o sexo e a ser infelizes), a sustentabilidade (nova grife para o ambientalismo), a cidadania, a igualdade entre os homens, uma alimentação balanceada, o fascismo dos direitos humanos, enfim, tudo o que os idiotas contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano".

Outro aspecto que se pode realçar em Pondé refere-se a sua postura "politicamente incorreta", com a qual aborda temas polêmicos sem se preocupar em afrontar os dogmas acadêmicos dominantes, por exemplo, quando trata de religião, política, família, mulher, sexo etc. Sobre este último assunto, travou polêmica ao afirmar numa entrevista que o "Viagra fez mais pelos humanos que o marxismo"...

Grosso modo, fazendo uso de um jargão comum do próprio filósofo, se tivesse de defini-lo numa expressão, o denominaria de "realista utópico". Se por um lado ele escancara as relações humanas na sua essência "desumana", isto é, sem a máscara dos ideais historicamente construídos, por outro exagera na formulação de conceitos sobre comportamentos sociais, acoplando-os, em alguns casos, em pressupostos darwinistas, os quais embora tenham lá uma estética de certo modo até admirável, não podem ser postos à prova num tubo de ensaio.  Em "Filosofia para corajosos", afirmou: "Aprecio muito o darwinismo, entre outras razões, porque considero o Alto Paleolítico (cerca de 30 mil anos atrás) o período áureo da humanidade. Éramos poucos, com uma logística leve, sem luxos e organizações políticas complexas, conhecíamos muito mais nossas necessidades, e éramos muito mais ágeis do que esses macacos que babam em cima das tecnologias da informação. E nossas crianças eram muito mais inteligentes. E nossas mulheres menos histéricas. E os homens menos mesquinhos." Se já é complicado tentar reconstruir acontecimentos históricos mais recentes, o que se dirá de eventos que supostamente teriam ocorridos há milhões de anos e para os quais apenas temos resquícios arqueológicos e muita imaginação!...

Porém entre virtudes e vícios, Pondé tem a rara característica de não pensar o que todos pensam, em ponderar com certa coragem sobre temas intocáveis das relações humanas, em não incorporar aos seus conceitos as fórmulas prontas do pensamento filosófico dominante da elite intelectual brasileira; enfim, pode-se até discutir a profundidade de suas ideias, pode-se também questionar o caráter mercadológico delas,  mas isso em si não diminui sua importância num cenário filosófico dominado pelo monótono, pelo unilateral e pelo politicamente correto.


É isso!


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Por: Iba Mendes (São Paulo, fevereiro de 2017)

11/10/2016

Reinaldo Azevedo e a síndrome do pavão espalhafatoso


Reinaldo Azevedo e a síndrome do pavão espalhafatoso


Há de nascer no Brasil um gênio tão versátil quanto o de Reinaldo Azevedo!

Sua capacidade de perambular pelas mais diversas esferas do saber, é de fazer arrepiar cabelos até em carecas. Embora tenha formação em Letras, é capaz de tratar com desenvoltura de Física Quântica a estratégias de guerras, não obstante priorizar com mais aferro as matérias relacionadas à jurisprudência.

Conhecido na imprensa por suas críticas mordazes ao lulopetismo, sempre teve sua imagem atrelada ao que de mais radical existe na Direita brasileira, sendo por isso rotulado pejorativamente de "rottweiler", ao que objetou afirmando ser apenas um "rottweiler amoroso".  É dele o neologismo "petralha", que é uma derivação de "petista" com "Irmãos Metralha" (The Beagle Boys), designando um indivíduo sem escrúpulo, o qual não vacila em cometer todo e qualquer ato marginal à lei, como usurar, mentir, extorquir, ameaçar, chantagear, roubar, corromper etc. (“Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa”)

Em consequência de suas opiniões inflexíveis e por seu espírito notadamente polemista, granjeou em torno de si muitos desafetos, inclusive alguns do âmbito do seu próprio círculo ideológico, como o deputado Jair Bolsonaro e o filósofo Olavo de Carvalho, a quem denominou de "decadente e derrotado": " Só não digo que Olavo perdeu porque nunca houve a hipótese de ele ganhar. Este senhor lançou-se no mundo das ideias como astrólogo e vai terminar como prestidigitador, escondendo e tirando imposturas da cartola. Outro dia alguém me perguntou se ele era mesmo de extrema direita. Nem isso. É um extremista do oportunismo". Com isso ele busca esquivar-se da injusta pecha de "conservador extremista", ao mesmo tempo em que se faz apresentar como um "pensador independente", o qual não se vincula ideologicamente com os tipos caricatos do direitismo brasileiro.

Não obstante sua inegável habilidade com a palavra escrita, é frequente descompor o verbo quando na defesa do que considera correto, principalmente se o "correto" estabelece alguma relação com os seus amigos. Em maio de 2015, por exemplo, escreveu um artigo em que criticava duramente o governador Tião Viana (Acre), chamando-o de "coiote", por este enviar a São Paulo uma leva de imigrantes haitianos. O resultado foi um processo por parte do político petista, culminando numa condenação de 20 mil reais, ainda em primeira instância.

Mais recentemente o ilustre jornalista deixou enveredar-se pela crítica contundente a notáveis figuras da Lava-Jato, justificando seu pendular comportamento pelo viés da "literalidade constitucional". A frequência com que tem insistido no assunto desagradou a um grande número de admiradores, que o acusam de ter guinado para a Esquerda. Nas redes sociais, os elogios outrora tão constantes foram substituídos por xingamentos e desconexas acusações.  Ele, porém, parece não se incomodar nem um pouco com toda essa balbúrdia virtual, fazendo questão de realçar que tem quatro empregos e que não se importa com alaridos: " escrevo e falo o que quero, não o que querem que eu escreva e fale".

Ao que se afigura, porém, a questão da "legalidade" para Reinaldo Azevedo vai muito além do seu mero apreço pela Constituição.  A reboque da simples vaidade pessoal e de seu exacerbado egocentrismo, correm por fora interesses relacionados à própria atividade que exerce, na qual fica sujeito a excessos dessa mesma "legalidade". Ao se colocar contra a condenação em segunda instância, por exemplo, ele busca preservar-se de eventuais condenações e, por conseguinte, preservar àqueles a quem tanto estima. Obviamente que legalidade e moralidade nem sempre se amalgamam. Em outras palavras: "nem tudo que é legal é moral".

Reinaldo Azevedo (assim como muitos outros jornalistas da imprensa brasileira) está visceralmente comprometido com determinado facciosismo político, o que torna suas opiniões, posto que bem escritas, altamente inconfiáveis e alienantes. Junte-se a isso sua bipolaridade verbal que absolve e condena ao mesmo tempo, e sua síndrome de pavão espalhafatoso que o faz se sentir ao mesmo tempo o rei Salomão e a Lady Gaga. Certamente ele não será um Carlos Lacerda!

É isso!

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Por: Iba Mendes (Novembro, 2016)

8/12/2016

Biografias manchadas



Biografias manchadas

Todo homem público que se preze deseja preservar incólume sua biografia para a posteridade. Não se espera que alguém, cuja obra seja um fator de orgulho para uma nação, queira entrar para história como um vilão ou um anti-herói. Infelizmente, porém, algumas dessas notáveis figuras não serão lembradas apenas pelo que fizeram do bom, mas também por aquilo que deixaram de fazer ou por aquilo que fizeram equivocadamente, ou ainda pelo que disseram ou escreveram. Dentre estas pessoas é possível citar:


 Roberto Carlos

Ao processar o escritor Paulo César de Araújo, que o biografou sem sua autorização, o “rei” maculou sua biografia e escancarou sua arrogância e autoritarismo. A retirada do livro “Roberto Carlos em Detalhes” das prateleiras é uma pecha que dificilmente será esquecida pela posteridade. Sobre a questão, declarou o biógrafo em uma entrevista à revista Istoé: “Roberto acredita que eu cometi um furto ao me apropriar da história dele, mas não parece compreender que ele é apenas tema de um livro, assim como ele usa Jesus como tema para algumas de suas canções. Para RC, Jesus é patrimônio coletivo, mas a história do próprio Roberto é particular. ”


Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Ao negar a paternidade à filha Sandra Regina Machado, o rei do futebol enodoou sua biografia e colocou em evidência uma mesquinhez digna apenas de uma peça de Molière. A paternidade só foi reconhecida depois de longos de anos correndo na justiça, e somente após o resultado positivo do DNA. Sandra faleceu em 2006 vítima de um câncer de mama. O pai não a visitou no leito de morte, não foi ao seu enterro, limitando-se ao envio de flores em nome das “Empresas Pelé”.


Chico Buarque

Não há dúvidas que a imagem do cantor e compositor foi manchada por seus comprometimentos ideológicos e por seus posicionamentos políticos. É fato notório que o autor de “Construção” nutre de grande admiração pelo ditador cubano Fidel Castro e pelo regime que por lá vigora. Numa entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, declarou: “Ainda hoje o ditador Fidel Castro, como gostam de dizer os jornais, inclusive a Folha... Ele é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina que resistiu a golpes de Estado e assassinatos e está ali. Todos os outros foram depostos ou assassinados. Ele sobreviveu a vários atentados. Manteve e mantém até hoje uma posição altiva. E isso é algo que ninguém deve ignorar e que eu admiro.” Mais recentemente apoiou o governo petista, acusando do “golpe” um processo legítimo e constitucional que é o impeachment.


Luís Inácio Lula da Silva

Houve um tempo em que Lula era unanimidade absoluta no Brasil. Ao último mês do mandato, no ano de 2010, alcançou a estrondosa cifra de 87% de popularidade, segundo pesquisa do IBOPE. Ele já foi tema de filme e até foi cogitado para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Dizem as más línguas que até curava hemorroidas. Nem mesmo o Escândalo do Mensalão fora capaz de lhe tirar o prestígio, o qual obtivera por meio do seu carisma pessoal e pelas medidas populistas que engendrara ao longo de seu governo. As coisas, porém, começaram a mudar a partir das denúncias da Operação Lava Jato, que culminou na prisão de muitos de seus amigos e que o atingiu também. A depender do andamento das denúncias que correm na justiça, será complicado para ele eleger-se inclusive para síndico de prédio. Lula talvez seja o exemplo de biografia manchada mais emblemático desse país. E ele que tinha tudo para ser o maior e o mais prestigiado presidente da história da República! Fim triste e melancólico.


José Dirceu

O conhecido líder estudantil dos anos 60, que também foi deputado federal e ministro-chefe da Casa Civil do Brasil, é hoje um simples presidiário. De herói durante o regime ditatorial transformou-se num antipático vilão, condenado atualmente na Operação Lava Jato a 23 anos e três meses de prisão em regime fechado pelos crimes de corrupção passiva, participação à organização criminosa e lavagem de dinheiro.


Luís Fernando Veríssimo

O envolvimento ideológico do escritor com os ideais da Esquerda brasileira, especificamente aqueles defendidos pelo Partido dos Trabalhadores, o PT, talvez explique sua desastrosa declaração, a qual foi publicada na edição online do Jornal Folha de São Paulo. Opinando sobre o atual presidiário José Dirceu, declarou ele: "pelo que o José Dirceu significa, mesmo que sua prisão não fosse política, seria política".

Poderia citar ainda muitos outros nomes, tais como os de Jô Soares, José de Abreu, Caetano Veloso, Regina Duarte, Wagner Moura, Lobão etc., todos eles engajados em causas políticas, quer da Esquerda, quer da Direita. Especificamente em relação aos artistas, a experiência tem mostrado que uma das coisas que mais enodoam suas biografias diz respeito exatamente ao engajamento político. A explicação que desponta parece óbvia: o artista não faz (ou não deveria fazer) arte para a Direita ou para a Esquerda, mas para o povo. Vá lá, que tenham suas preferências políticas, mas que as exerçam na “clandestinidade”.



 É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto de 2016)

8/11/2016

A contradição do Karnal



A contradição do Karnal

Em uma de suas palestras, o historiador Leandro Karnal (atual professor da UNICAMP), rotulou os leitores da revista Veja de “absolutamente fascistas”, acrescentando ainda que este mesmo leitor é “tapado em qualquer sentido”.

A contradição do famoso professor é basicamente igual a de todo ideólogo esquerdista, residindo entre o discurso e a prática.  O tipo de pessoa que usa o seu iPhone para criticar o consumismo e que fala em revolução proletária mas desde que com os bens alheios.   Ao tecer críticas aos leitores de Veja, Karnal revelou sua incoerência em proporção marxista. Ora, como alguém que concede entrevista para Jô Soares e Ronnie Von, que participa de debate na Globo News e que tem uma coluna semanal no Jornal O Estado de São Paulo pode etiquetar pejorativamente os habituais ledores da revista Veja? Sim, pois, será possível distinguir política e ideologicamente os Mesquitas, os Civitas e os Marinhos?

É claro que o simples ato de se ler a revista Veja (ou qualquer outro periódico) não torna ninguém fascista. Por razões óbvias da profissão, o querido professor já deve ter lido, por exemplo, Mein Kampf, e nem por isso se tornou um nazista. Uma pessoa pode ler uma revista por infinitas razões, inclusive para criticá-la. O fato de alguém ler a Bíblia de Gênese a Apocalipse não o torna um fundamentalista religioso. Na verdade, uma mente madura pode ler qualquer coisa, de bula de remédio ao Livro de São Cipriano, e ainda assim tirar algum proveito disso, nem que seja a simples ampliação vocabular. Restringir e criticar determinadas leituras por questões ideológicas ou porque qualquer outra razão, é um pensamento retrógrado e absolutamente incoerente à liberdade de expressão.

Mas ao que parece o nosso professor sucumbiu irresistivelmente às delícias do vil metal.  Fama e dinheiro é o que melhor sintetiza o sonho capitalista. Apenas um povo pode resistir: são os mortos!


É isso!



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Por: Iba Mendes (Agosto de 2016)

12/25/2015

“Malandro com aparato oficial”: Chico Buarque e o episódio do Leblon



“Malandro com aparato oficial”: Chico Buarque e o episódio do Leblon

Num Evento literário realizado no ano passado em Paraty (Festa Literária Internacional de Paraty - Flip), o cartunista Jaguar relembrou alguns fatos relacionados a Millôr Fernandes, dentre os quais uma desavença entre este o cantor Chico Buarque. O fato deu-se num restaurante no Leblon, no Rio de Janeiro, nas proximidades do apartamento de escritor e cartunista.

O cantor e compositor Chico Buarque estava muito aborrecido com o célebre humorista do Pasquim, porque este teria escrito que “jamais daria o seu cãozinho para passear com o compositor de Construção”. O cantor então tentou agredi-lo ali com uma garrafa de bebida, em seguida cuspiu em seu rosto e o chamou de “velho”. Millôr revidou atirando alguns objetos em direção ao compositor, porém sem acertar o alvo.

A respeito do assunto, segundo o Jornal do Comércio, em edição de 10/02/1989, Chico Buarque telefonou em certa ocasião para o ator Daniel Filho (que também teria sido ofendido pela crítica mordaz de Millôr) e se solidarizou com este, dizendo: “Faça o mesmo que eu há alguns anos: dê uma boa cuspida nele. Mas não bata não, porque a gente não deve bater em pessoas de idade” (vide imagem abaixo).

Numa entrevista ao programa “Roda Viva” neste mesmo ano de 1989, quando indagado pelo jornalista Augusto Nunes acerca das razões dessa briga com o Chico, Millôr respondeu da seguinte forma: “Eu não briguei com o Chico Buarque, jamais briguei com Chico Buarque. O que acontece é o seguinte, eu não gosto de falar disso porque essas coisas se refletem em fofoca, você fala uma coisa aqui e essas coisas vão reverberando. Eu não briguei, os defeitos do Chico Buarque se chocaram comigo, defeitos que eu não tenho. Se você quiser uma frase minha e quem quiser que se sinta ferido com ele: ‘Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal’”.

Bom. Após muitas idas e vindas, eis que surge de supetão a velha e famigerada “ironia do destino”. Há dias atrás (21/12/2015), estava Chico Buarque saindo de um restaurante no mesmo bairro em que outrora se encontrava Millôr Fernandes. De repente, algumas pessoas aproximam-se dele e começam provocá-lo, referindo-se ao seu envolvimento com o Partido dos Trabalhadores (PT). A certa altura Chico chama um rapaz de “merda”, ao que este retruca com o mesmo palavrão. A discussão prossegue até a chegada do Táxi...

O episódio, que já se tornou rotina entre as duas principais vertentes políticas do Brasil (Esquerda e Direita) ganhou ares de importância e apareceu dias depois em todos os jornais e revistas do país, sendo inclusive um dos assuntos mais discutidos nas chamadas redes sociais.

Obviamente que a questão rendeu pela importância da pessoa de Chico Buarque na Cultura brasileira. Fosse lá ele um dentre a “gente humilde” de algum morro carioca ou um “Pedro Pedreiro” qualquer, o fato sequer mereceria uma “conversa de botequim”.

Chico Buarque, que ao longo da sua trajetória construiu em torno de si uma falsa imagem de “bom mocinho”, tornou-se “vítima” de sua persistente hipocrisia e do seu escancarado “idealismo lucrativo”, como diria Millôr. Quiçá uma de suas grandes frustrações foi não ter nascido pobre, para vivenciar na prática o seu “comunismo”. O socialismo do Chico é apenas devaneador e utopista. É o tipo de ideologia política vastamente encontrada entre boa parcela dos intelectuais e acadêmicos das muitas universidades públicas brasileiras, que vivem de um “socialismo livresco” e que adoram escrever sobre a “revolução proletária” dos bens alheios.

Muitos dos que se comoveram apaixonadamente com a “agressão” ao compositor de “Olhos nos olhos” pouco fizeram para denunciar, à época, o incitamento público sofrido pelo o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, para não esmiuçar o caso envolvendo o cantor Lobão, que inclusive foi ameaçado de morte por suas posições políticas. Chico Buarque, contudo, tem a seu favor a fama de “homem cortês e educado”, além da eterna reputação de “perseguido político”, o qual "resistira heroicamente" à Ditadura Militar.

Aliás, muitas das pessoas que o tomam como herói contra a Censura do governo autoritário de 1964, parecem desconhecer que desta mesma Censura foram vítimas os chamados "cantores das empregadas", tais como Odair José, Waldik Soriano, Luiz Ayrão, Benito di Paula, entre outros. Acerca disso, escreve Paulo César de Araújo, em seu recomendadíssimo livro "Eu não sou cachorro não”, publicado pela Editora Record (2002):

O trabalho do historiador Alberto Moby, publicado em 1994, comparando a censura à música popular em dois períodos explicitamente autoritários, Estado Novo e Regime Militar, não foge à tendência predominante.

Ao abordar os anos do AI-5, sua análise se prende tão-somente a nomes como Chico Buarque, Gonzaguinha e João Bosco, porque, segundo ele, estes artistas estavam comprometidos com a denúncia do autoritarismo enquanto que "os representantes das demais denominações em que foi dividida a música popular brasileira ou ignoravam tais preocupações ou nunca deixavam que interferissem no seu trabalho artístico".

Entretanto, o que será demonstrado aqui é que o aparato repressivo que se abateu sobre a música e o músico brasileiro durante os anos mais duros do governo militar não atingiu apenas os figurões da MPB, embora estes fossem, até por sua visível militância política, muito mais vigiados e censurados.

Mas os "cantores das empregadas" também foram vítimas da repressão, e em algumas vezes também tiveram que malandramente valer-se da linguagem da fresta para ludibriar o cerco do censor. E para melhor compreender este embate talvez seja útil recorrer ao que o sociólogo inglês Crane Brinton definiu como "reinado de terror e virtude".

 [...]

A partir do período do AI-5 - quando o ato de cantar e compor tornou-se efetivamente caso de polícia no Brasil -, foram produzidos diversos textos focalizando a ação da censura sobre a nossa música popular. E, invariavelmente, esses textos, tanto os produzidos pela mídia (através de reportagens em jornais e revistas) como os de origem acadêmica, procuram ressaltar de que maneira a obra de compositores como Chico Buarque, Gonzaguinha ou Milton Nascimento foi mutilada ou arquivada por força da censura federal.

Já a censura sofrida no mesmo período por artistas como Odair José, Waldik Soriano, Luiz Ayrão, Benito di Paula ou Dom & Ravel não é sequer mencionada. Em consequência disso, temos cristalizada, no campo da música popular, uma memória que associa o período da repressão política no Brasil apenas aos cantores/compositores da MPB.

O escritor ressalta ainda um “mito” que grupos esquerdistas criaram em torno das músicas de Chico Buarque,  que lhes atribuíam um caráter político quando ele apenas queria “falar do amor”.

Hoje o próprio Chico Buarque admite que naquele contexto as suas músicas assumiam um colorido político que muitas vezes não era intencional. Segundo ele, “a censura enxergava mensagens subliminares onde não existia e o pessoal de esquerda também queria ver essas mensagens. 'Ah, mas você quis dizer...' 'Não, eu não quis dizer nada, é uma canção de amor'.” (176)

Bem. Voltando ao episódio do Leblon, ao assumir publicamente uma postura ideológica e política, Chico Buarque (ou qualquer outra figura popular que exerce algum tipo de influência sobre a sociedade), precisa encarar a realidade da crítica pungente e até do escárnio público. Do contrário, que assuma uma postura de neutralidade e dedique-se exclusivamente à missão de encantar as massas com seu indiscutível talento... 

Que seja, enfim, um "malandro profissional"!!!


É isso!


[Por: Iba Mendes, Dezembro, 2015]


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Consulta bibliográfica:
Paulo César de Araújo: "Eu não sou cachorro não: música popular cafona e Ditadura Militar". Editora Record, 2ª edição, 2002.


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ANEXO:

Jornal do Comércio: Sexta-Feira, 10/02/1989

9/24/2015

O beato Olavo de Carvalho





O beato Olavo de Carvalho


Poucas figuras no cenário intelectual brasileiro é tão controvertida e polemista quanto a pessoa de Olavo de Carvalho. Do "lado de cá" um turbilhão de fãs a admirá-lo, a defendê-lo, a divulgá-lo nos cenários virtuais e, se necessário for, a fazer tudo o que mestre mandar.  Do "lado de lá", seus ferrenhos e encarniçados opositores,  em geral esquerdistas verbalmente agressivos e incapazes de enxergar nele alguma virtude filosófica, ainda que mínima.  

Foram exatamente as abundantes críticas destes últimos que fizeram despertar em mim certa curiosidade em conhecer melhor esta figura. Ao fim de tudo,  definiria o Olavo como um espécie de Nelson Rodrigues de batina. Se por um lado ele fere as regras do decoro, com um palavreado empanturrado de obscenidades, por outro,  é capaz de defender os milagres católicos e de invocar a santíssima Virgem Maria e o Padre Pio de Pietrelcina.

Não se pode duvidar de sua inteligência. Poucas pessoas conhecem tão profundamente os conceitos marxistas e gramscistas  quanto Olavo de Carvalho. Possui ele uma extensa cultura filosófica, indo de Aristóteles a Otto Maria Carpeaux,  de Santo Agostinho a Aleksandr Dugin etc.

Contudo, se não se pode negar suas virtudes, tão pouco é possível omitir sua estupidez, que se manifesta, entre outras formas, na sua eterna mania de grandeza,  quando atribui a si próprio o status de "maior filósofo do Brasil".  É estúpido também quando destila sua intolerância verbal aos que o contestam.  É estúpido ainda quando tenta justificar suas posições ideológicas mediante conceitos religiosos ultrapassados e anacrônicos, sempre preso a um conservadorismo ao estilo Medieval.

Mas, enfim, entre virtudes e defeitos, Olavo de Carvalho é como aquele beato que, durante a liturgia, mostra-se cheio de piedade e devoção, porém, quando lá fora não é capaz de resistir às piscadelas de putas e donzelas.


É isso!


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Por: Iba Mendes (Setembro, 2015)

9/23/2015

Mino Carta, Veja e a Censura

Mino Carta, Veja e a Censura

Moralmente falando, vejo  Direita e a Esquerda  brasileira imergida na mesma matéria fecal. Em outras palavras:  é tudo farinha do mesmo saco ou raspa do mesmo tacho. 

Politicamente, segundo se atribui a Millôr Fernandes, a distinção fundamental entre ambas é que primeira acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a outra acredita cegamente em tudo que ensina.

Entre velhacarias e cinismos, há características que parecem mais peculiares entre uma e outra. No caso da Esquerda, é a hipocrisia.  O tipo de pessoa que adora criticar o capitalismo enquanto se conecta ao mundo com seu “iPhone” e sorve deliciosamente um “Dow Vintage Port” numa bela mansão com vista para o mar!

Não sei se o Mino Carta aprecia um "Dow Vintage Port" ou se come caviar. O pouco que sei dele é que foi o cara que idealizou as revistas Veja e Isto É, e que edita a Carta Capital, revista notadamente de viés esquerdista.

Numa entrevista concedida ao Jornal Movimento, no dia 7 de março de 1977, quando perguntado pelo periódico em que medida a censura pode ajudar uma revista, respondeu:

"A censura ajudou Veja. Ela estimulou certas camadas da população à compra da revista censurada. E, por outro lado, a censura espicaçou a própria redação a encontrar fórmulas, e até mesmo a encontrar um ideário que não estava bem definido. A censura, por exemplo, foi importante para mim, enquanto eu estive em Veja. Eu não gostaria de parecer cínico, estou apenas sendo realista, mas a censura acabou sendo um dado positivo na formação de pessoas, antes mesmo que na formação de jornalistas."

Talvez isso explique em partes porque o criador se voltou contra suas criaturas.


É isso!

"O Movimento": 7/3/77, p. 7

3/10/2015

Juca Kfouri e a elite hipócrita

Juca Kfouri e a elite hipócrita

Com o título “O panelaço da barriga cheia e do ódio”, o jornalista Juca Kfouri não só polemicou nas redes sociais como, também, deixou claro sua posição ideológica no cenário político brasileiro: ele é da Esquerda, não faz parte da “elite branca”. Em vez disso, é da “elite hipócrita”, elite esta que se vangloria em tecer crítica ao “capitalismo selvagem” enquanto se conecta ao mundo com seu “iPhone” e sorve deliciosamente um “Dow Vintage Port” numa bela mansão com vista para o mar! É o socialista tipo Chico Buarque, que adora Cuba, mas prefere curtir uma tarde no Café la Favorite, na Rue de Rivoli, em Paris.

No artigo acima, publicado no seu blog, escreveu Juca:

“O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.”

Ora, como o Juca sabe que o tal “panelaço” não se deu contra a corrupção? Sim, afinal, que dados estatísticos ele se utilizou para chegar a esta rigorosa conclusão? E mais: o que o levou a inferir com tamanha precisão que o soar das panelas se deu apenas e tão somente entre a tal “elite branca”?

É bem provável que o Juca tenha escutado o estalar das panelas do seu próprio apartamento, obviamente rodeado desta “elite branca”, na qual ele se insere, mas da qual não faz parte. É bem irônico!

E conclui ele:

Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.”

A mim, que não sou da tal “elite branca” e que moro na periferia de São Paulo, soa bem estranho ler de alguém que estudou na USP e que ganhou fama e muito dinheiro na Editora Abril, vir a público com esse discurso franciscano, a la Madre Teresa de Calcutá.

Aliás, cabe perguntar: quando diretor da revista Playboy quem o Juca privilegiou para tirar a roupa? Não foram por acaso as beldades da chamada "elite branca"?

E, por fim, ao acusar a “elite branca” de odiosa, não estria ele destilando também seu pequeno ódio e esta mesma “elite branca”? 

Bom. Se canja de galinha não faz mal a ninguém, coerência também não!

É isso!



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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

6/25/2013

Lula: popular e populista


Lula: popular e populista

Segundo recentes pesquisas, o percentual dos eleitores que acham a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ótima ou boa é de 75%, e nada menos do que 86% aprovam sua maneira de governar.


O que, afinal, faz do governo de Lula uma quase unanimidade popular, num país onde a pobreza e a miséria persistem como uma gangrena terrivelmente mal tratada? Como entender que, numa nação com um tão elevado índice de violência, um governante seja assim tão popularmente aclamado? Quais as razões para se elevar o prestígio de um político quando a saúde, a educação e a desigualdade social do país encontram-se numa situação de caos deplorável?

Bem, para início de conversa, faz-se mister realçar que unanimidade e popularidade nunca foram sinônimos de progresso, e jamais refletiram benfeitorias sociais e políticas numa determinada nação. O ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, tem lá uma alta aclamação popular em sua terra, contudo, tal fato em si não possui nenhuma significância diante da calamitosa realidade em que vivem a população daquele país. Durante o governo de Getúlio Vargas, sua estima pública era de uma concordância quase geral no Brasil, todavia, esta situação apenas servia de camuflagem para sua política populista e hipócrita: o pai dos pobres e a mãe dos ricos!

A popularidade e a quase unanimidade de Lula parecem guiar-se por semelhantes atalhos. Entre os pobres, pelo assistencialismo, muito bem tipificado em programas tais como o Bolsa Família e o Fome-Zero (estive recentemente no nordeste e pude averiguar a relevância dessas medidas populistas para os sofridos moradores daquela região). Entre a classe média, explica-se, entre outros motivos, pela facilidade aos bens de consumo (tornou-se fácil adquirir-se um automóvel em 360 “suaves” prestações). Já entre a classe rica, aquela que mais se beneficiou com a política vigente, faz-se compreender pela manutenção de uma política econômica de juros exorbitantes (minha vizinha comprou um computador e ao fim das prestações pagará 50% do valor real em juros). Nunca os bancos tiveram tanto lucro como atualmente. Como diz a canção: “estão rindo á-toa”!

Não sou anti-petista nem defendo qualquer outra ideologia política. Apenas me recuso a ser embalado pelo "suave" canto da sereia de um Lula, que - politicamente - desfigurou seus ideais socialistas em prol de uma elite sanguessuga, que apenas está preocupada em "comprar café e vender Nescafé".

É isso!

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Por: Iba Mendes (julho, 2010)