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12/21/2018

"Alma e Dor" (Humor de Outrora)


ALMA E DOR

Um médico tido como cético em extremo, quis provocar a um famoso teólogo afirmando a não existência da alma. Para este perguntou-lhe:

— Reverendo, o senhor já viu alguma alma?

— Não.

— Já ouviu alguma alma?

— Não.

— Já cheirou alguma alma?

— Não.

— Já saboreou alguma alma?

— Não.

— Já sentiu alguma alma?

— Sim, graças a Deus, respondeu o religioso.

— Pois bem — prosseguiu o médico — aqui temos nós quatro sentidos contra um, para provar que a alma não existe.

— Na sua autoridade de médico  observou o eclesiástico — há de permitir-me também, Sr. doutor, que lhe faça algumas perguntas:

— Já viu alguma dor?

— Não.

— Já ouviu alguma dor?

— Não.

— Já cheirou alguma dor?

— Não.

— Já saboreou alguma dor?

— Não.

— Já sentiu alguma dor?

— Sim.

— Neste caso — continuou o estudioso da fé — aqui temos também quatro sentidos contra um, para provar que a dor não existe, e todavia o doutor bem sabe que ela existe.

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Jornal "O Besouro", 1880.

Confissão" (Humor de Outrora)


CONFISSÃO

A propósito da morte do sanguinário Ramón María Narváez, conta-se que, estando ele no leito de morte, foi visitado pelo arcebispo de Granada, o qual buscava sua confissão e seu arrependimento pelos crimes que cometera.

— Pense, dizia o prelado, —  pense nos seus inimigos! perdoe-lhes para que Deus lhe perdoe.

— Não os tenho, dizia o moribundo.

— Mas excelência, quando se ocupa uma posição como a sua!...

— Digo-lhe que os não tenho! — insistiu ele na resposta.

— Mas quem sabe?...  Talvez  algum...

— Não os tenho!

— Mas, excelência...

Então o moribundo, impacientado e num esforço supremo, ergueu-se de repente do leito e vociferou raivoso:

— Não os tenho, já lhe disse... Ordenei que fuzilasse a todos!


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Jornal "O Rio Doce", 1896.

"Visita" (Humor de Outrora)


VISITA

Arnaldo era conhecido por sua excentricidade e pela intolerância com que costumava lidar com os outros.

Um dia estava ele para sair de casa, quando apareceu para procurá-lo um desconhecido.

— O que quer o  senhor? perguntou Arnaldo com visível impaciência.

O sujeito, muito atrapalhado, respondeu:

— Eu vinha visitar vossa excelência.

— Ah! era só isso! pois entre e sente-se.

O sujeito entrou e sentou-se.

— Agora — apostrofou o Arnaldo — visite-me, vamos!

O sujeito, cada vez mais atrapalhado, permaneceu em silêncio.

— Muito bem!  arrematou  o  Arnaldo. — Já estou visitado. Podemos descer agora...

E saiu...

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Diário do Espírito Santo, 1889.

"O burro" (Humor de Outrora)


O BURRO

Um indivíduo analfabeto recebe diante de outros um bilhete em que um amigo lhe pedia um burro emprestado; ele olhou o bilhete, e não querendo demonstrar que não sabia ler, disse prontamente: 

— Estou ciente, diga a ele que vou lá em pessoa.


Almanak da Flora Brasileira, 1881.

"Seguro de vida" (Humor de Outrora)


SEGURO DE VIDA

— Seu marido fez seguro de vida contra acidentes?

— Fez e tem tido muita sorte.  Pois, imagina, logo no dia seguinte caiu-lhe uma telha na cabeça... e ontem foi esmagado por um automóvel...


Jornal “O Estado”, 1937.

"Advogado" (Humor de Outrora)


ADVOGADO

Certo advogado vai servir de testemunha em um tribunal, quando, bondosamente, o juiz o adverte:

— Meu amigo, esqueça por um momento a sua profissão e diga-nos a verdade. Sim?


Jornal “O Estado”, 1937.

"Sardinhas" (Humor de Outrora)


SARDINHAS

Um menino ouve o professor dizer que os peixes grandes comem os pequenos e, intrigado, pergunta:

— Eles também comem sardinhas?

— Comem, sim senhor.

Mais intrigado ainda:

— E como fazem eles para abrir as latas?


Jornal “O Estado”, 1937.

"O Médico" (Humor de Outrora)


O MÉDICO

Depois de uma árdua batalha, o médico de bordo confere os mortos e ordena o seu lançamento ao mar. Os marinheiros iniciam a lúgubre tarefa quando um dos homens, prestes a ser despachado exclama:

— Alto lá, amigos!... eu não estou morto...

Admirados os marujos o contemplam e, depois, com escárnio:

— Oras bolas!... Queres então saber mais do que o médico?

E o defunto foi lançado ao mar.


Jornal “O Estado”, 1937.

"Ratoeira" (Humor de Outrora)


RATOEIRA

ELA — Não podes dizer que andei atrás de ti, que te fui buscar, que te persegui...

ELE — Também a ratoeira não anda atrás do rato, não o vai buscar, não o persegue... e, no entanto, ele cai nela!


Jornal “O Estado”, 1937.

"George Washington" (Humor de Outrora)


GEORGE WASHINGTON

O pai:

 — Escuta, meu filho; ando muito aborrecido contigo, pois, na tua idade, George Washington não mentia, era estudioso e obediente...

O garoto:

— Mais aborrecido estou eu com o senhor, pois na sua idade, o mesmo George Washington era já presidente dos Estados Unidos...


Jornal “O Estado”, 1937.

"A barba" (Humor de Outrora)


A BARBA

Ele mandou raspar a enorme barba espinhenta e, chegado em casa, alegre a esposa corre-lhe ao encontro. Abraça-o e depois, gulosamente, cobre-o de beijos. Beija-o na fronte, nos olhos, nas faces e na boca. Murmura incompreensíveis palavras de amor.

Feliz, o marido pergunta-lhe:

— Então...  querida, gostaste de eu tirar a barba?

Estupidificada, a esposa recua, pondo as mãos sobre a cabeça:

— Oh, Carlos, és tu! Eu nem te reconheci...


Jornal “O Estado”, 1937.

"Desastre" (Humor de Outrora)


DESASTRE

— Jamais aconteceu-te algum desastre em Estrada de Ferro?

— Já. Foi numa delas que conheci a minha mulher...


Jornal “O Estado”, 1937.

"Marinheiros" (Humor de Outrora)


MARINHEIRO

Certo garoto, puxando um burro perto de um cais muito movimentado, trazia o animal a corda curta a fim de evitar que fugisse.

Alguns marinheiros, que contemplavam a cena, meteram-se a fazer troça com o rapazinho, que, entretanto, demonstrava não se importar com toda aquela zombaria. A certa altura, um dos marinheiros perguntou:

— Oh pequeno! por que trazes teu irmão com a rédea tão curta?...

O garoto, com serenidade imperturbável, respondeu:

— É para que ele não corra a se alistar como marinheiro!...

Jornal “O Estado”, 1937.

"Oração" (Humor de Outrora)


ORAÇÃO

Certa ocasião, na mesa de uma estalagem, após um longo percurso, assentaram-se para jantar várias passageiros de uma diligência.

No grupo encontrava-se um austero e piedoso bispo, que não se cansava de proferir conselhos e consolações aos seus companheiros de viagem, emitindo conceitos religiosos e pregando a resignação, cada vez que se lhe deparava uma oportunidade.

Em dado momento, porém, ao servir-se da comida, o bispo teve a pouca sorte de pegar num prato tão quente, que chegou a queiram-lhe os dedos.

Apesar da sua qualidade de ministro de Deus, o prelado não se conteve e deixou escapar uma enxurrada de pragas e ditos muito pouco episcopais.

Um dos presentes que recebera conselhos do padre, num instante em que se exaltara, puxou de um caderninho, a lápis, rápido, começou a escrever alguma coisa, olhando para religioso.

Este perguntou-lhe:

— Que está a escrever aí, irmão?

E o interpelado, com toda a calma:

— Estou apenas tomando notas, para não me esquecer da oração que vossa excelência acaba de proferir, Sr. bispo, contra queimaduras.



Jornal “O Estado”, 1936.

"Semelhança" (Humor de Outrora)


SEMELHANÇA

Contam alguns escritores que, no tempo do imperador Augusto, uns cortesões apresentaram-lhe um jovem grego, que se parecia com ele, feição por feição.

O imperador, que não acreditava na existência de alguém que se pudesse lhe assemelhar tanto, ao ponto de ocasionar confusões, depois de haver contemplado o jovem, surpreso e até meio confuso, resolveu perguntar-lhe, em tom de gracejo:

— Oh! mancebo, sei que não és daqui mas, diz-me uma coisa: tua mãe veio alguma vez a Roma?

O grego não perdeu o controle e, compreendendo a malícia que a pergunta do soberano encerrava, respondeu sem titubear:

—  Não, "sire"! Minha honrada progenitora nunca esteve aqui, mas meu pai veio cá muitas vezes...


Jornal “O Estado”, 1936.

"O nariz" (Humor de Outrora)



O NARIZ

Um cavalheiro que tinha o infortúnio de possuir um formidável nariz, conseguiu, certa vez num baile estabelecer uma conversação com uma dama finissimamente elegante e muito bem-humorada, a quem vivia cortejando.

Radiante com a oportunidade feliz que lhe deparava, o cavalheiro principiou o galanteio com coragem:

 — A senhorita vai perdoar-me, mas... eu tenho que lhe falar sobre uma coisa muito comprida...

A dama que não suportava o seu interlocutor, não perdeu a calma e, galhofeiramente, respondeu a queima-roupa:


— Ah! Já sei: o senhor vai falar-me do seu nariz, não é?...

Jornal “O Estado”, 1936.

"O Prefeito" (Humor de Outrora)


O PREFEITO

Quando o coronel Libório da Soledade assumiu a alta investidura de prefeito municipal de Arapiraca, depois de ter lido um entusiasmado improviso, no qual agradecia pela milésima vez a confiança de seus correligionários, apressou-se em ficar a sós com o secretário da Prefeitura, para, imediatamente, iniciar a sua administração, que prometia ser fecunda.

Assim, ansioso para pôr em prática suas medidas, dirigiu-se ao seu subordinado e disse:

— Seu Tancredo, pegue da caneta e escreva um Aviso, que arreputo inadiáver...

— Pronto, seu Libório, é só falar!

— Então lá vai! Faça bem legílver, entendeu!?

E ditou, solene, convencido, autoritário:

“NESTE CEMITÉRIO SÓ SE ENTERRARÃO OS MORTOS QUE VIVEREM NO MUNICÍPIO”...


Jornal “O Estado”, 1936.

"No Banco" (Humor de Outrora)


NO BANCO

Uma velha senhora entrou numa agência da Caixa Econômica e apresentou ao empregado uma  nota de 50 mil réis.

— A senhora quer depositar este dinheiro?

 Sim, senhor.

O empregado entregou então a mulher um formulário e uma caneta.

— Faça o favor de assinar nesta linha... aqui... acima do valor...

— Aqui, não é?

— Sim, senhora!

— O meu nome todo?

 Sim, o seu nome completo.

— Meu nome de solteira... ou...

 Não, o seu nome atual...

— Então quer dizer que o sobrenome de meu marido — que Deus o tenha! — devo também pôr aqui?...

— Sim... mas também o sobrenome da senhora... fui claro?...

— Todos os meus sobrenomes?

— Sim, todos!

— Em que ordem?

— Na ordem de costume...

— Obrigada... compreendo... mas...

— Mas o quê, minha senhora?

— É que... é que eu não sei escrever...


Jornal “O Estado”, 1936.

"O crítico" (Humor de Outrora)


O CRÍTICO

Henrique e Sílvio discutem asperamente acerca de literatura. Henrique, que já havia rabiscado alguma coisa, grita irritado para o Sílvio:

— Não! Não, seu Sílvio, você não pode opinar sobre nada de literatura, afinal você nem sequer escreveu uma única linha!...

— Que besteira! respondeu exaltado o Sílvio, — também eu nunca pus ovos... e, no entanto, melhor do que qualquer galinha, posso perfeitamente opinar sobre uma omelete...


Jornal “O Estado”, 1936.

"Uma pecadora" (Humor de Outrora)


UMA PECADORA

Acesa em santo fervor
loira e bela penitente
vai aos pés de confessor
lançar-se contritamente.

— Meu padre, diz, eu pequei:
disso estou arrependida,
mas é o bastante, não sei,
para ser absolvida?

E por que não? tão horrendo
o teu pecado assim é?
pergunta o bom reverendo
puxando pelo rapé.

— Ouça meu padre, outro dia,
sem querer, sem desejo,
meu primo teve a ousadia
de me dar aqui um beijo.

E a mocinha confessada
ao dizer isto indicou
a face linda e corada
onde o priminho a beijou.

Disse logo o padre: Então
É só esse o teu pecado?',
e deu-lhe a absolvição
Dando um beijo no outro lado.


Adalberto Soares
Jornal “O Bond”,  1906.